quarta-feira, 19 de março de 2008

Ficha de Leitura da Revista Movimento da UNE - PARTE 1 (Por Leonardo Bruno)

Revista “Movimento” da UNE, No. 3 – Junho de 1962 – Tiragem 6000 exemplares
Diretor: César Guimarães
Editor: Arnaldo Jabor

P. 2
UNE uniu

Finalmente, depois de anos da acalento do problema, a UNE descobriu à fórmula de se tornar realmente uma entidade nacional e de ser conhecida e acatada por todos os estudantes do país. Praticamente percorrendo todo o Brasil, a iniciativa da UNE-Volante, levou a reforma universitária às massas, tendo Aldo Arantes falado a mais de 200 assembléias gerais de escolas, levos teatro popular a um público que totalizou mais de 50 mil pessoas, levou cinema, levou Centro Popular de Cultura e Editora Universitária. “Une veio para unir” – eis o dístico empregado, e nunca um dístico foi tào verdadeiro. A unidade de movimento estudantil foi realizada em cada escola, discutida com cada estudante.
A repercussão não deixou de se fazer sentir. E imediatamente: os estudantes de todo país passaram a luta por um terço nas congragações e conselhos universitários. E imediatamente: a empresa comercial conhecida por “O Globo” passou a atacar a UNE, divulgando que tinha levado “subversão e desordem” a todo o país. Não sabemos se ligar a entidade à massa universitária e às massas populares em geral é subversão e desordens. Se o é, muito bem, não há mais nada a fazer senão isto. Se é subversão lutar pela reforma universitária, também a fizemos; e como!
De certa forma tem razão a empresa comercial “O Globo” – fomos subverter os valores que tal empresa defende em seus gordos editoriais. Fomos esclarecer. E nada mais subversivo para os que vivem do obscurantismo. No mais, a UNE VOLANTE cumpriu seus desígnios; e no 25 aniversário da entidade temos a certeza de que não negligenciamos nossos deveres. O resto é desespero de defnsores do arcaico, é recurso de empresa comercial que não hesita em utilizar a má informação de respeitáveis autoridades para caluniar e difamar. Pobres diabos!


p. 9

Glauber Rocha

No precesso de transformação da sociedade brasileira, o “cinema novo” já começa a desempenhar um papel fundamental no ato de se comunicar com as massas. Creio, como Miguel Borges, Leon Hirschmann, Marcos Farias, Carlos Diegues e Nelson Pereira dos Santos, que o cinema (principalmente o nosso) é mais do que tudo um problema de comunicação. Todos os dados entram no jogo, na busca da linguagem que estabeleça um dialogo com o povo dos campos, das cidades e dos esquecidos litorais do nordeste. O encontro, a verdadeira personalidade de “autor” é necessário, porque somente a partir desta consciência plena dos poderes criativos é possível aplica-los como método para s clara interpretação de uma realidade que o público deve entender como objeto a ser urgentemente transformado. Quem não sabe é o povo. Por isto o “cinema novo” está caracterizado pela linguagem direta. Recuso mesmo uam discussão estetizante que possa, diante do próprio filme, levar o espectador a se alienar pelo expressivo. Um caso flagrante é o de “Terra Trema”, de Visconti, cuja extrema beleza faz da miséria um espetáculo, se bem que o autor é um marxist. A forma destroi o pensamento.
(...)
Nã tenho preconceitos de forma e hoje não prefiro nenhum cineasta como modelo. Nossa cultura interessa muito mais. Acho esquisito, inclusive, se falar em estética de uma arte popular revolucionária no Brasil: a posição fundamental, creio, deve ser apenas política. A estética varia no complexo. A coragem para falar a verdade determina uma posição de câmara muito mais eficiente. A exigência de uma complicação intelectual pode me considerar primário, mas defendo até agora esta posição e creio que continuarei a pratica-la em filmes futuros.
(...) O povo precisa conhecer todas as suas virtudes e então descobrir que ele é dotado para a luta e que é injusto viver como ele vive – ou lutando de forma errada, no banditismo ou no misticimo, no esporte ou na prática política corrompida.

Na página 14 desta revista Rogério Belda conta uma “História Infantil da República”. Inicia o texto invocndo o historiador Mendes Fradique (1922) que “informa que a República do Brasil foi proclamada por Dom Quixote de La Mancha a 15 de Novembro de 1899(sic), sob forma de anarquia constitucional representtiva.
Continua o texto dizendo que após a partida do Imperador D. Pedro II o Brasil se estruturou num esquema de estados ‘que perdura até hoje: São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul revezaram-se no poder conforme as alianças. Este esquema é natural e espontâneo, quem tem dinheiro é quem manda desde que não haja “crash” na bolsa de Nova York.’
A partir daí descreve todos o presidentes do Brasil de maneira cômica, mas politizando.

P. 17

INFORME

Esta é uma nova seção da revista MOVIMENTO, orientada por seu setor de estudos, com vista a um comentário atual de problemas educacionais, políticos, culturais e econômicos. Comumente trará vários comentários. Começamos, porém, com uma exceção: é que a miséria do Nordeste é grande e há quem não apenas dela se aproveite, mas até quem se divirta com ela.

A quem tivesse dúvidas sobre a chamada “Aliança para o Progresso” o conhecimento do plano traçado para o desenvolvimento do Nordeste é esclarecedor. Esse plano, que resultou de uma missão de estudos chefiada pelo embaixador Bohan, está sendo escondido (é este o termo) pelas autoridades brasileiras, tendo caído em mãos de alguns afortunados que assim puderam se informar sobre a brincadeira de mau gosto, sobre o humor negro com que os responsáveis pela “Aliança para o Progresso tratam a miséria da população nordestina, que, exatamente neste momento, vive uma “epidêmia” de fome.
O plano que a SUDENE esconde envergonhada, acorvadada por não poder pronunciar-se, é apresentado num documento de mais de 100 páginas, inclusive discriminando custos e o montante que caberá, respectivamente, ao Brasil e aos Estados Unidos. Apenas alguns órgãos da imprensa divulgaram partes do documento e é provável que grande parte desta exposição muito tenha de inédito para o público.

CONTEÚDO DO PLANO

O plano geral consta de um plano a curto prazo outro a longo prazo, quinquenal. O primeiro, para o qual seriam despendidos mais ou menos 33 milhões de dólares, parte dos quais os Estados Unidos emprestariam, parte outra que o Brasil dispenderia, teria por finalidade dar “uma manifestação insofismável da preocupação do Brasil e dos Estados Unidos” em relação as populações do Nordest, através de: dar água às populações, instalar “centros obreiros” (adiante vai a explicação), levar assistência médica urgente o interior, dar cursos de alfabetização.
Vejamos alguns pontos do programa. Com relação a distribuição de água, diz-se que: “propomo-nos proporcionar: a) chafarizes públicos ou cacimbas para abastecimento dos favelados das principais cidades litorâneas do Nordeste, b) redes de distribuição de água em determinadas cidades interiorianas e c) cacimba para pequenas comunidades – todos estes projetos ostentando visivelmente os símbolos da “Aliança para o Progresso” (OS GRIFOS NÃO SÃO NOSSOS, SÃO DO PRÓPRIO TEXTO). Desta forma é que se pretende atender ao povo nordestino; com chafarizes de promoção da “Aliança”, método visivelmente calcado em campanhas demagógicas de candidatos a vereador.
Para atender o operariado das cidades, serão montados “Centros Obreiros da Aliança para o Progresso” que forneceriam informações sobre o trabalho, prestariam assistência médica, exibiriam filmes e, o que é mais importante, serviriam de escritório aos delegados dos trabalhistas do Ministério do Trabalho, que é quem resolve as questões trabalhistas. Não é preciso dizer mais, mas, por incrível que pareça, há mais: aí seriam distribuídos alimentos, seri dado um curso de alfabetização. Eis uma observação do documento: “o local deveria ter, tanto quanto possível, características de um ambiente aprazível de um prque com uma área de recreação infantil, árvores, bancos, um local para exibição de filmes ao ar livre, e por último, porém, fator não menos importante, um marco destacado e permanente documentando o concurso da Aliança para o Progresso”
O Plano a curto prazo recomenda ainda postos volantes de saúde, com médicos não apenas americanos, mas franceses, holandeses e belgas. Parece que não há médicos no Brasil para passear medicina nas comunidades, que continuarão, permanentement, sem qualquer assistência.
Não falta também a proposição de uma programa de eletrificação com geradores móveis, a óleo diesel, se bem que seja sabido que o que falta no Nordeste é distribuição da energia de Paulo Afonso.



Última Página

Universitários em Greve Geral

Os universitários brasileiros estão em greve geral. Greve pela participação de 1/3 de estudantes nos órgãos colegiados das universidades e faculdades. O próprio ministro da Educação já reconheceu que os estudantes têm direito a essa reivindicação. Por isso, sob a liderança da UNE, permaneceremos em greve até a vitória final.

Os estudantes fazem a universidade parar até que ela possa caminhar pelo caminho da reforma.







Revista “Movimento” da UNE, No. 4 – Julho de 1962 – Tiragem 6000 exemplares
Diretor: César Guimarães
Editor: Arnaldo Jabor

O número 4 (este) é diferente. É especial, dedicado ao Congresso Nacional dos Estudantes, a ser realizado em Petrópolis, no Hotel Quitandinha, durante uma semana a partir de 15 de julho.
Reunimos nesta edição da revista subsídios para os estudos a serem promovidos no decorrer do conclave. Há, no corpo de “Movimento”, artigos sobre:
Cultura Popular, A Analfabetismo no Brasil, Sindicalização Urbana, O problema do Ensino Público e Privado, O Poder e sua Estrutura no Brasil, O Colonialismo, sua presença e açãoem nossa terra, O Significado da Política Externa Brasileira, O Co-Governo e a Participação universitária. Além de um roteiro do ano findo: o que houve dentro e fora da UNE, do metralhamento democrático do MAC até a greve de 1/3.
Este vigésimo quinto congresso coincide com o quarto-de-século que a UNE completa.
O que faz dele uma data festiva e especial. Lutas e vitórias contínuas, por vinte e cinco anos.
O Congresso de Estudantes brsileiros é uma reunião geral. Participarão dele cerca de mil estudantes: dois representantes por cada diretório acadêmico do país. É assim que participam do congresso representantes de todas as escolas superiores de nossa terra. Incube-lhes discutir a atuação da gestão terminada da UNE, deliberar sobre as próximas diretrizes políticas e administrativas e, finalmente, escolher a nova diretoria, que durante um ano estará à frente da União Nacional dos Estudantes.
No mais, é desejar boas vindas aos congressistas do interior, neste balanço de atividades. Desejar unidade de estudos, unidade de intenções, com vistas a continuação do caminho andado. Confirmação do espírito libertário que anima a entidade. Continução do irmanamento com o Progresso e da visão de um futuro humanizado, manutenção da agressividade com os opressores, os mentirosos e os inhumanos. (grifo meu, por achar que o parágrafo prega a continuação da gestão)



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Roteiro de Julho a Julho

De julho a julho, a União Nacional dos Estudantes, em seu vigésimo quinto aniversário, demonstrou a maturidade da participação universitária. Não fugindo à luta, quer a especificamente estudantil quer a mais geral, dentro de nosso contexto político, a UNE persistiu em sua tradição de defesa dos interesses populares.
Assim, já em agosto, a crise sequente à renúncia do presidente Jânio Quadros quase permitiua ascenção ao Poder de uma ditadura militar. Juntamente com outras forças, os estudantes resitiram e venceram o golpismo.
E houve UNE VOLANTE, difundindo o movimento estudantil por todo o país, autenticando, em cada escola, as tomadas de posição da UNE. E o Centro Popular de Cultura nasceu e multiplicou-se e lança o seu primeiro filme. E a greve por 1/3.
E o resto é a espectativa pela conturbada situação. Expectativa e vigilância.

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Agosto: Ou a democracia do terror

No dia 25 de agosto – dando uma susto em todo mundo – o presidente Jânio Quadros renunciou ao seu cargo. A Constituição dos Estados Unidos do Brasil em seu título I, seção I (do poder executivo), capítulo III não deixa dúvidas sobre o que fazer em tal caso – Art. 79 – Substitui o Presidente, em caso de impedimento, e sucede-lhe no de vaga, o Vice-Presidente da República.
Entretanto existem alguns que são mais democratas e constitucionais que a própri constituição e resolveram decretar que o sr. João Goulart não entrava. A União Nacional dos Estudantes, porque não concordasse com isso, foi fechada pela polícia do Governador Carlos Lacerda, Ardovino e sua Gestapo cuidaram deste serviço.

Uma nota

Dois dias depois da renuncia, o jornal “O Metropolitano” da UME tirava um número no peito e nele estava contida a nota oficial da União Nacional dos Estudantes. Ei-la na íntegra:
“A Constituição brasileira, que os estudntes com seu sngue ajudaram a ser criada há alguns anos átras, não será desrespeitada!
Desde as primeiras horas da crise, a União Nacional dos Estudntes tem estado de alerta e ativa na defesa da democracia e do Regime.
Fecharam nossa sede, perseguem nossos líderes, repelem nossas manifestações à força. Mas os estudantes hão de resistir.
O povo brasileiro, nesta hora de decisão, não pode titubear indeciso entre a manutenção da legalidade e a imposição de força. Não podemos aceitar qualquer espécie de golpe, e exigimos que seja cumprida à risca a letra da Constituição.
Conclamamos o povo e, particularmente os estudantes, para que se mantenham vigilantes. Infelizmente, cercada, perseguida, fechada a UNE nem sempre tem podido furar a censura e o policialismo que domina o Estado da Guanabara. Mas podem crer que não cederemos.
A Constituição deve ser defendida!
Povo e Estudntes do Brasil!
Unidos pela Constituição!
Unidos pela Legalidade!

UNE muda-se

Não tendo condições de atuar na Guanabara, a UNE mudou-se para Porto Alegre. Um conselho extraordinário lá se reuniu.
O golpezinho parlamentarista impediu uma grande luta. Impediu que o desejo manifestado pelo povo fosse cumprido, mas serviu para mostrar também aos “salvadores da pátria” que o seu tempo está findado e que o povo já tem voz própria. A UNE voltou, assim, para o Rio de cabeça erguida, pois embora não tenha conseguido tudo, soube evitar o pior.

Gágarin vem do Cosmos à Praia do Flamengo

Primeiro veio Gágarin. O homem que desceu a terra para dizer a todos que nosso planeta é azul.
Em sua visita de amizade esteve no Brasil. Estando no Brasil, esteve na UNE. De lá falou aos estudantes.


MAC dá Feliz Ano Novo a UNE

Tentaram arrombar as portas e como não conseguissem, distribuiram rajadas de metralhadora pelas janelas. O MAC, também conhecido como OES tupiniquim, foi o autor da festa. A revolta foi geral e a Cinelândia se encheu como nunca antes, para o comício de protesto organizado pela UNE. A direita n Brasil já dá os seus tirinhos. Terrorismo subdesenvolvido por enquanto, mas, não fosse cortado o mal pela raiz como foi, estaria ele hoje cusando grandes problemas.

I Encontro Centro-Sul

Em janeiro, numa promoção da UNE e de “O Metropolitano”, realizava-se o I Encontro Centro-Sul de Estudntes. Na capital paulista, representantes das faculdades do Rio e São Paulo discutiam problemas educacionais bem como analisaram assuntos regionais, nacionais e internacionais.
Temário longo, sem dúvida. Do analfabetismo à Reforma Universitária no campo educacional; da remessa de lucros ao processo de industrialização no âmbito nacional; do imperialismo à política externa no campo internacional a toda uma análise da região centro-sul. Paralelamente aos trabalhos de comissões deslocaram-se para São Paulo o Ministro Virgílio Távora, o professor Vieira Pinto, o economista Paul Singer e o técnico em seguros José Esmeraldo para realização de palestras e debates com os estudantes.

Seminário de Assistência Universitária

E, em fevereiro, a União Nacional do Estudantes juntamente com a Campanha de Assistência ao Estudante do Ministério de Educação e Cultura, realizava o Primeiro Semináro Nacional de Assistência Universitária.
Da verificação do fato que a assistência ao estudante universitáro é um dos pontos fundamentais a ser considerado ao se proceder à restruturação de nossa universidade, a UNE reuniu na Guanabara representantes de todas as Uniões estaduais de Estudantes para um debate com o Ministro da Educação, Oliveira Brito, e com o diretor da CASES, Salvador Jullianeli.

P.19
UNE Ouve Bons Conselhos

Aproveitou-se a ocasião. O Conselho da UNE, reunido em janeiro na Guanabara foi bater um papo com o professor Durmeval Trigueiro, chefe da Divisão do Ensino Superior do Ministério da Educação e Cultura. Sinal dos tempos, sem dúvida, R. U. (reforma universitária) deixar de ser tratada apenas por estudantes.
E não foi só. O conselho ordinário reunido deliberou sobre a ação junto à Frente de Libertação Nacional, pronunciou-se a respeitodo projeto que regulamenta a remessa de lucros, denunciou o terrorismo na América Latina e lançou protesto contra o metralhamento da UNE.
No campo educacional, fixm posições em relação à lei de Diretrizes e Bases da educação e elaboram taticamente um plano para a conquista da reforma universitária, além de considerações sobre anuidades escolares e livro didático.




Encontro Centro-Leste

Estudantes de Minas, Estado do Rio, Espirito Santo e Goias reuniram-se em Belo Horizonte para um debate aberto. UNE e “O Metropolitano” patrocinaram. Os governadores Celso Peçanha, Magalhães Pinto, Mauro Borges, o ministro Gabriel Passos, o professor Pompeu Accioly Borges, Oswaldo Gusmão e Álvaro Vieira Pinto fizeram as conferências.
As quatro comissões que funcionram durante o congresso levaram seus relatórios à plenário. Os relatórios finais foram aprovados, as conferências ouvidas e discutidas. Goianos, capixabas e fluminenses voltaram às suas casas. O encontro Centro-Leste havia terminado e a UNE unia mais ainda.

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II Seminário Nacional de Reforma Universitária

Reunidos em maio do ano passado, os estudantes elaboraram um documento que fixava as suas posições em relação à Reforma Universitária. Em Salvador era preparada a “Carta da Bahia”. Não era um documento completo, está visto. Seria uma primeira tomada de posição, suscetível à mudançs conforme fosse aprofundado o estudo.
Entendendo que era chegado o momento de renovar as posições tomadas em Salvador, a UNE organizou, juntamente com a União Paranaense de Estudantes, o II Seminário Nacional de Reforma Universitária. Centena e meia de estudantes reuniram-se, assim, em Curitiba.
Defrontaram-se, como é lógico, com problemas diversos dos da Bahia. No intervalo de um seminário a outro, era sancionada a Lei de Diretrizes e Bases da educação, o que mudou toda a perspectiva de trabalho.
Árduo, o seminário. Dormiu-se pouco, estudou-se muito (trabalho extenso para uma semana) mas, no final de tudo concretizou-se o trabalho de todos estudantes presentes a Curitiba – a Carta do Paraná. Estava elaborada.
As determinações do II seminário nacional de reforma universitária foram levadas aos estudantes de todos os estados. Isto era de extrema importância. Não deixar acontecer com a Carta do Paraná o que aconteceu com a da Bahia, foi a manifestação de todos os presentes à Curitiba. Assim, R. U. foi para as bases. E, em todos os estados em todas as faculdades falou-se na objetivação da reforma universitária. Falou-se para todos os estudantes do Brasil da necessidade de representação dos alunos nos órgãos diretores das faculdades e universidades. Un terço de alunos nestes órgãos foi proposto. A resposta veio unânime: SIM.

Seminário de Imprensa Universitária

Esperado e necessário. Imprensa universitária exigia há muito tempo um seminário. E que não ficasse na simples elaboração de projetos jornalísticos, mas que numa análise crítica da imprensa brasileira denunciasse todas as manobras de uma imprensa de aluguel, todas as pressões a que ela está exposta. Apontar o papel das agências de propaganda, os interesses que defendem. Denunciar com firmeza as agências de notícias, deturpadoras de fatos, que formam a opinião pública à “moda da casa”.
Tudo isto foi feito. Maio, em Belo Horizonte. UNE e Tribuna Universitária, orgão do DCE da Universidade de Minas Gerais, promoveram. Jornais Universitários de todo o país reuniram-se e debateram. No final, a criação de uma agência estudantil de notícias ficou decidida. E marcou-se outro encontro. Em João Pessoa.

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A Volante resolve tudo

A UNE Volante foi um achado. O que se poderia, mesmo, chamar de uma grande bolação. Um contato direto com todos os estudantes do País, era o que precisava há muito tempo a UNE. Levar às bases suas decisões e seus problemas.
O Centro Popular de Cultura foi peça importante neste trabalho. Apresentando peças sobre o subdesenvolvimento, sobre a luta de libertação nacional, e a reforma universitária. E por onde passou foi entusiasticamente recebido.
Durante a viagem, a UNE manteve contato com o maior número de diretórios possíveis, palestrou com autoridades e promoveu tantas assembléias quantas foram necessárias. A receptividade nos estados foi excelente e uma coisa é hoje inegável: a UNE está firme perante toda a classe estudantil.

Volante de UNE foi lá longe

Se havia um desligamento da União Nacional dos Estudantes com as bases universitárias era preciso desfazer esta situação o mais rápido possível. No conselho extraordinário de Porto Alegre foi examinado o problema e levantadas diversas soluções. O Centro Popular de Cultura apressou os trabalhos. Ensaios mais rápidos e um dinamismo raramente igualado. Gráfica e Editora foram montadas. “Movimento” (nova fase) começou a circular.
Compondo o espetáculo “Miséria ao alcance de todos” da UNE Volante, a Canção do Subdesenvolvido de Carlos Lyra e Chico de Assis foi o grande sucesso em toda viagem. Jornais, no interior, transcreveram a letra em suas páginas e, quando apresentada no teatro, arrancava sempre a melhor reação da platéia.

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Cuba: Uma semana

Uma semana para Cuba. Assim o Centro Popular de Cultura inaugurou, juntamente com o Instituto Cultural Brasil-Cuba, duas exposições – sobre o Ano da Educação e sobre Artes Plásticas. Armada na sede da UNE, a exposição foi visitada por um grande público que pode apreciar também grande número de filmes e fotografias sobre a nação socialista das Antilhas.

Musicas malditas são seis

Quando Carlos lyra, jovem papa da Bossa Nova, e membro do CPC compunha a Canção do Subdesenvolvimento estava apenas iniciando a série de músicas que iriam compor o long-play “As dez mais malditas” que por motivos financeiros ficou apenas como “As seis mais malditas”. O disco foi trirado no peito e na raça. Óbvio que gravadora alguma encarou o assunto. Disquinho muito bom, excelentes músicas, teria mesmo uma boa vendagem, mas o patrão disse não.

Editora Universitária: UNE em Livros

Um objeto antigo dos estudantes brasileiros: editar seu próprios livros levar ao povo em geral problemas brasileiros, aprofundando, assim, a consciência nacional em torno deles. Reforma Universitária é hoje – por exemplo – assunto muito falado e discutido. Entretanto é coisa virgem em nossas editoras. Este é um exemplo, apenas. Outros assuntos importantes, as vezes são pouco explorados. E – o que é pior – mal explorados.
Assim, tinha a Editora Universitária, antes de tudo resolver este problema. Em Maio deste ano a EU lançava seu primeiro livro – A Questão da Universidade de autoria do diretor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – Alvaro Vieira Pinto. O Livro já teve quase que toda a sua tiragem vendida. É um trabalho alongado e coordenado das conferências que o professor Vieira Pinto vinha realizando em diversas faculdades e encontros regionais.
Editado, assim, o livro sobre Reforma Universitária iniciou a EU o seu regime normal de vida. Agora, é editar sempre. Um segundo livro já está aí: A Questão da Remessa de Lucros. Cinco autores – Sérgio Magalhães, Aristótele Moura, Francisco Mangabeira, Barbosa Lima Sobrinho e Roland Corbisier. “A Questão”, agora é outra.
Remessa de Lucros e Reforma Universitária foram dois assuntos já abordados. Outros virão.
Mas não basta à Editora, apenas contínua. É claro que isto é importante, mas a EU deve e tem de vencer um outro problema: o custo do livro. Editar, mas editar barato, é outro lema da EU. Com o livro do professor Vieira Pinto não possível fazer milagres. Era o primeiro e a EU precisava se assegurar. A coisa no entanto com o correr das edições, vai melhorar.

UNE quis “Movimento”

A revista Movimento já havia saído algumas vezes em outros anos. Agora, funcionando na Editora Universitária, entra em nova fase. Dirigida por César Guimarães e editada por Arnaldo Jabor, Movimento alcança o seu quarto número. Não vai parar por aí, é certo, pois em agosto passará por cima das faculdades brasileiras e cairá em circuito externo, nas bancas de todo Brasil. Aguardem.

Um 1/3 ou greve

Uma greve, e greve das boas

Do II Seminário Nacional de Reforma Universitária saiu a exigência da luta. A necessidade de participação dos alunos nos órgãos diretores das universidades e faculdades foi constantemente citada.
Da UNE Volante partiu a divulgação das recomendações do II SNRU. Reunindo assembléias em todas as faculdades possíveis de todos os estados da União, a União Nacional de Estudantes colocou para os estudantes o problema da participação de 1/3, conforme indicava a Carta do Paraná. A proposição teve aceitação unânime.
Do Conselho ordinário da União Nacional de Estudantes reunido em São Luís partiu a decisão de entrada em GREVE. Greve por um terço.

Greve de Cúpula?

Não. Isto impressionou muita gente. Na verdade era mesmo difícil a quem não acompanhou todo processo exposto acima, entender a adesão quase unânime das faculdades e universidades do país. Surpreendente ver tal reivindicação concedida tão rapidamente por tão grande número de escolas superiores.

Dizem que, dos estados, o Paraná foi o primeiro. Sede do Seminário e sede da Reforma, de lá espalhou-se a greve. Ramificou-se logo iniciada e do Amazonas ao Rio Grande do Sul as universidades pararam

Vitória fácil?

Também não. Contra ela levanta-se a ausência de um presidente, um primeiro ministro já deposto, um ministro (de Segunda) mistificador e um governador desonesto.
Contra ela os cavalos vestiram soldados e galoparam avenidas. Contra ela a borracha cantou mais forte e as bombas fizeram chorar ainda mais. Contra ela tudo tentaram e tentarão, sem saber – pobres coitados - que estão brigando contra a história e o que estão procurando impedir, no máximo conseguirão atrasar.
A greve por um terço já deu muito que falar. E vai dar mais ainda. Difícil para quem escreve quase um mês antes deste congresso fazer maiores previsões. Como acabará a greve? Por quanto tempo durará? Respostas nada fácies Uma coisa no entanto é certa: ela vencerá. Se vi durar muito ou pouco, se vai terminar desta ou daquela maneira, isto pouco importa. Pois o lema está formado: 1/3 ou greve, e grve para todo o sempre não pode ser.


Na página 24 há uma discussão sobre a estrutura de poder no Brasil, a partir da visão da UNE
A partir da 28 um debate sobre política externa brasileira.
Na 29 UNE e o Imperialismo


Revista “Movimento” da UNE, No. 5 – Setembro de 1962 – Tiragem 10000 exemplares
Diretor: César Guimarães
Editor: Arnaldo Jabor


P.2: O XXV Congresso dos Estudantes – por Homero da Cunha

O XXV Congresso Nacional de Estudantes consolidou a unidade do movimento universitário brasileiro. Isso significa: reduziu à proporção justa o derradeiro resquício de anti-progresso ainda ocorrente no movimento universitário.
Esse resquício estava travestido de roupa nova. Sob o nome solene de Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, desde alguns meses antes do Congresso estava sendo articulado um pequeno grupo disposto a fazer oposição à diretriz política que a União Nacional dos Estudantes tem seguido nestes últimos anos. O grupo tinha dinheiro, armas de fogo, cassetetes, um mimiógrafo para imprimir folhetos imorais. Tinha mercenários, recrutados a mil cruzeiros por cabeça – e por tal dia, tal como revela uma gravação feita com um deles na Delegacia de Petrópolis.
Então: pouco depois da meia-noite de Sexta-feira o Hotel Quitandinha começou a se tornar irrespirável. Bombas de gás lacrimogêneo, e outras, tinham sido explodidas nos seus corredores. Pegados em flagrante e cercados, os perturbadores da ordem – usemos esta linguagem – tiraram revólveres da cintura e dispararam tiros em todas as direções. Acertaram um tiro na perna do universitário Germano Datz, imobilizado por seis meses no hospital, com fratura na perna.
Isso, no momento em que se apresentava, no plenário repleto, o candidato único à presidência da UNE – Vinicius Caldeira Brandt. Na manhã do dia seguinte, dia da eleição, a Polícia do Estado do Rio se postava em frente do Hotel Quitandinha, por prevenção. Os caubóis do MAC e da Frente da Juventude Democrática (entidade fantasma presidida por um não-estudante profissional) não tornaram a aparecer, a eleição foi feita, Vinicius e o resto da chapa foram eleitos pela unanimidade do Congresso. Abstenção de pouco menos de dez por cento, tal como em todas as últims eleições.
A unidade que o XXV Congresso consolidou não foi obra pura do Congresso, todavia. Antes, foi uma espécie de epílogo de um trabalho longo desenvolvido pela UNE na gestão cujo o mandato se encerrava. Trabalho que objetivara, tonicamente, a superação da defasagem, antiga e aparentemente crônica, entre as cúpulas e as bases do movimento estudantil.

UNE viajou

Esse trabalho se concretizou, de agosto de 1961 a julho de 1962 – um ano de gestão – na chamada UNE-Volante; empreendimento que levou a diretoria da UNE a todos os estados.
Além, é claro, dos empreendimentos quase de rotina na vida da Entidade: seminários e encontros culturais. Entre os quais, efetivamente, o II Seminário de Reforma Universitária, realizado em Curitiba, cujo o documento, a “Carta do Paraná”, circula hoje entre todos os estudantes do país.
Quando o Congresso começou, em Quitandinha, dia 15, já estava tudo preparado, portanto, para que ele rendesse o fruto principal que rendeu: a unidade do movimento estudantil universitário. Os presidentes dos quinhetos e tantos diretórios acadêmicos e das entidades estaduais, representantes básicos da massa universitária, já não eram mais o que em outros congressos os vitimava e os mantinha abaixo das lideranças do movimento: estranhos. Ao contrário, dessa vez eles participavam do Congresso, tomavam parte, ativos e atualizados – e em comunhão com as idéias e sentimentos não mais, então, exclusivos dos líderes, mas próprios também deles.
De certo e relativo modo, pode-se dizer que não havia no Congresso de Quitandinha provincianos desatualizados, ou alheios, ou indiferentes. Não havia mais, tão acentuado como antigamente, desnível, entre dirigentes da UNE e dirigidos da UNE. Todos haviam se tornado dirigentes. Isto é: a UNE, no caso sinônimo do movimento universitário, tinha se tornado um organismo – em que todos os órgãos cumprem sua função.
É evidente que esse desenvolvimento do movimento universitário, espelhado pelo XXV Congresso, não foi conseguido ou produzido por agência das cúpulas. Não foi um desenvolvimento produzido de cima para baixo – quer dizer: não resultou de lições ou catequeses comunicadas, paternalmente, pela direção do movimento, às suas bases.
Não. O movimento universitário se tece e se movimenta junto com e dentro da dinâmica da sociedade nacional sofreu mudanças profundas de agosto de 1961 para cá. Mudanças em sentidos vários. Um principal: a de seu projeto imediato.

Efeitos da Crise

A renúncia do Presidente Jânio Quadros – com a qual se pode nomear a crise que ela gerou e de que foi fruto – pôs, em agosto passado, cruelmente a nú as contradições elementares da sociedade brasileira. Elementares: estruturais. De repente, ficou evidenciado que a estrutura em que se contém a sociedade brasileira atingiu o limite último de suportabilidade – e que está por estourar e por ocasionar, assim, o parto, hoje inelutável, de uma sociedade qualitativamente outra.
Por condições próprias especiais – e óbvias – os universitários foram o setor social mais diretamente atingido pela incisão, operada na consciência brasileira, pelo impacto da crise de agosto. Incisão de efeitos imediatos: a participação do movimento universitário na empresa de sustentação da ordem legal, contra a qual se atentou, foi, a bem dizer, fundamental – e decisiva. Imediatos e de conseqüências sucessivas: despertada, a consciência universitária aguçou-se, aprofundou-se, cimentou-se.
A UNE-Volante encaminhou, até uma quase solução, o problema da defasagem entre as bases e as cúpulas liderantes do movimento. E isso foi póssivel, exatamente, porque a UNE-Volante encontrou, nas bases, as condições objetivas criadas pela mudança ocorrida na consciência social do País, com os acontecimentos políticos de agosto.
Isso significa que, quando a UNE, tornada volante, saiu pelo Brasil adentro, a fim de tentar superar a defasagem bses-cúpulas, objetivamente essa defasagem já estava superada. E o que a UNE-Volante fez foi formaliza-la, sanciona-la.
A mesma coisa se pode dizer do Congresso. O Congresso não produziu a unidade do movimento universitário, pois essa unidade já se realizara. O que o Congresso fez foi interpreta-la: foi expressa-la.
E aí o Congresso mostrou também mais uma característica agora adquirida pelo movimento universitário brasileiro: maturidade. Sem maturidade não existiria unidade, não se geraria a unidade expressa pelo Congresso. E a unidade expressa pelo Congresso reflete a maturidade dos universitários brasileiros.

Resultados

Resultados? O Congresso teve muitos.
Em seu discurso de posse, o novo presidente reafirmou o que a UNE vai procurar fazer em mais um ano de vida: lutar contra a dominação externa de nossa economia e contra o latifúndio. A refirmação de princípios e objetivos feita por Vinicius foi, pela primeira vez, a de todo o movimento estudantil.
Como também foi de todo o movimento a decisão de manter a greve por um terço de representação do corpo discente nos órgãos colegiados da Universidade, que o Ministro da Educação do novo Gabinete diz pretender regulamentar e que depende, a esta altura, do Congresso - a quem o Gabinete solicitou delegação de poderes. Não houve discrepância nenhuma quanto à necessidade de continuação da greve.
Outro resultado do Congresso: a visão retrospectiva da grandeza do movimento estudantil. Por uma espécie de balanço, e, graças o qual, por uma contemplação objetiva do movimento, pode-se constatar que o movimento estudantil brasileiro é uma presença enorme, hoje, no processo da sociedade brasileira. Ganhou-se ciência, em Quitandinha, e depois de Quitandinha, da importância da cultura popular, realmente uma força de desmoronamento e ruína da que parecia crônica alienação cultural do País e, em concomitância, de imposição de cânones novos e verdadeiros à arte nacional.
Isso se viu no “Auto do Relatório do CPC”, apresentado no último dia do Congresso pelo Centro Popular de Cultura. Nesse “Auto”, teve-se a idéia clara de que a cultura popular – arte pra povo – é um instrumento justo e poderoso de formação de uma consciência – um acordar vigoroso, uma auto-compenetração lúcida e compreensiva. E o “Auto” mostrou que o movimento de cultura popular, original e autêntico, está colocado no fim da linha histórica dos ismos falsos e irrisórios – dos muitos ismos com que a arte se fantasiou, no Brasil, alienada, alientória, contra-humana.
Outro resultado que se pode tirar do Congresso é o que sugere a sua mudança qualitativa. O XXV Congreeso não foi um congresso de estudantes no sentido eivdo de pejoração que o cacoete paternalista burguês lhe atribui, sistematicamente, e que até há pouco tempo realmente possuia. O XXV Congresso foi um congresso cultural, produtivo e dinâmico. Os conchavos eleitorais foram substituídos pela consciência geral do sentido do Congresso e da eleição de uma diretoria para uma entidade da importância da UNE. E daí o comportamento dos congressitas ter sido consciente – e subordinado à norma maior, e por todos tacitamente concertada, da unidade do movimento.
Excluído o derivativo dos conchavos, o Congresso pôde ser criador, discutidor, estudioso. Falaram, nos fóruns que sobre temas realizados, homens como Paulo de Tarso, Santiago Dantas, Paulo Alberto Monteiro de Barros, Nelson Werneck Sodré, Paulo Shilling, Leonel Brizola (na sessão de instalação), e outros. O plenário, de mais de mil universitários, participou dos fóruns, debateu com os conferencistas, perguntou, discordou – aprendeu. É claro: principalmente aprendeu.
Depois do Quitandinha, o movimento universitário chegou a uma fase grave de sua história. O trabalho longo de elaboração ideológica e política, motivo e objetivo da fase anterior, está completado. Pronto o trabalho de amadurecimento. Agora chegou a hora do trabalho objetivamente produtivo, que, de natureza, só poderia ser posterior ao trabalho de um embasamento sólido.
Isso se tornou possível devido a conquistas numerosas. Uma delas, que se deve ressaltar, auspiciosa, é a do aniquilamento dos remanescente da fase anterior do movimento universitário. Que agora é atividade de homens conscientes do papel a cumprir. Os obices – digamos , internos, foram afastados, e dizer isso é repetir que o movimento estudantil está maduro. Auto-consciente. Sabe-se, conhece-se – e pode, de agora em diante, dsempenhar ainda melhor a função revolucionária que a realidade lhe impõe. Mais do que impõe: que lhe propõe como desafio e teste à sua maturidade inegável.


P. 17 Informe

João Boa-Morte Livro popular

Com um livrinho que dará certamente o que falar e o que pensar a todo tipo de leitor, iniciou o Centro Popular de Cultura da UNE, através da Editora Universitária, uma série de CADERNOS DE CULTURA POPULAR, com os quais passará a colocar na prática os principios e a programação expostos por Carlos Estevam no artigo “Por uma arte popular revolucionária”, já publicado no número 2 desta revista. Naquele artigo, opondo “arte do povo” e “arte popular”, estevam deixava bem claro que os artistas e intelectuais do CPC haviam escolhido um terceiro caminho o da “arte popular revolucionária”, arte com objetivo político bem definido, qual seja o de contribuir, dentro de seu campo, para o processo de emancipação integral do povo brasileiro, daí seu caráter eminentemente revolucionário.
(...)
“Já vão todos compreendendo,
como compreendeu João,
que o camponês vencerá
pela força da união.
Que é entrando para as Ligas
que ele derrota o patrão,
que o caminho da vitória
está na Revolução”.


P. 18
A Greve da UNE

No momento em que encerrávamos nossos trabalhos, o Congresso Federal de Educação aconselhava a realização de provas únicas, no fim do ano, bem como deliberava a proposta da reivindicação de um terço nos órgãos colegiados que a representação estudantil de fato deve ser ampliada, não fixada, no entanto, a sua porcentagem. O ministro da Educação, a quem cabe em última instância decidir, preparava-se para pedir ao Congresso uma habilitação legislativa para resolver de tal porcentagem “até o máximo de um terço”. Dois problemas surgem desde logo: o primeiro, referente a esta participação propriamente dita, o segundo, mais importante para a opinião pública, que diz respeito a greve universitária e suas implicações políticas.
Não ouvimos nem lemos até agora nenhum argumento que nos convencesse de que não é acertado o que pedimos. Muitos, por exemplo, dizem que insistimos em um terço e que tal número não tem razão de ser. Pois um terço só tem razão de ser: nos Conselhos Universitários significa que para cada faculdade haverá um aluno – isto porque os professores se fazem representar através do diretor de cada escola e de um membro da congregação. Nada mais acertado que cada escola tenha um aluno para zelar por seus problemas específicos, do ponto de vista do corpo discente. Quanto às congregações e aos conselhos técnicos administrativos, tal número permite um estudo pormenorizado por parte dos alunos de cada uma das múltiplas questões ali estudadas. Nem se diga tal número irá influir ponderavelmente nas votações, “prejudicando o ensino”. Será que os que usam tais argumentos pretendem que as congregações estejam sempre contrárias aos interesses dos alunos? Então porque pensar nas votações antes que os problemas surjam?
Há alguns argumentos muito interessantes contra a participação dos alunos nos órgãos colegiados. Assim um ilustre catedráticoda Guanabara aventou que os alunos iriam “dominar” tais órgãos, tendo em vista que os professores costumam faltar às suas reuniões. Evidentemente, não temos culpa se os ilustres catedráticos também fazem a sua “gazetinha”. Outro catedrático aventava que os alunos representantes não iriam estudar e necessariamente os de mais baixo nível cultural. Por nossa parte, não pensamos o mesmo dos catedráticos que ativamente trabalham nos colegiados... Outro ainda afirma que esta é uma manobra política para “comunizar”o ensino superior: gostaríamos de saber – e, por exemplo, o digno reitor da Universidade do Paraná talvez nos possa responder – em qual país do bloco comunista a reivindicação de um terço foi feita, antes de os comunistas chegarem ao poder, ou efetivada, depois de instalados no comando do país. Caso não nos citem nenhum país nesta situação, consideraremos tal argumento como pouco elevado e só um grande esforço nos obrigará ao dever de respeito para com seus veiculadores.
O fato é que certos círculos políticos e econômicos, estão muito assustados com a possibilidade de que os universotários falem e votem nos órgãos colegiados. Usam os argumentos menos sérios deste mundo para retrucar a uma sólida posição dos estudantes, não esquecendo, inclusive, de atribuir à UNE e às entidades estudantis atitudes que estas nunca tiveram, nem vão Ter. Fazem uma tremenda campanha jornalística, alentada por algumas injurias e calúnias que, partindo de quem parte (o vespertino “O Globo” ou o “Estado de São Paulo”, por exemplo), apenas nos choca por compreendermos que há pessoas e grupos que podem descer demais na escala moral – campanha essa voltada para a divisão dos estudantes, com um movimento de diretórios acadêmicos contra a UNE e uniões estaduais dos estudantes. Um “furo” na greve ou uma critica mais acerba à UNE merecem manchetes e editoriais alarmistas, cuja cotação é desconhecida por não existir ainda Bolsa de valores especializada em corrupção dos órgãos de imprensa.
Para comprendermos o porque de tudo isto, é preciso abordar as implicações políticas da greve universitária. Ocorre que tal greve paralisa o ensino desde maio e vai caminhando a passos largos para a vitória total. Isto prejudica interesses estabelecidos. Mas o que é pior para certos setores: significa um reforço de prestígio para a UNE e para o movimento estudantil. Que, por sua vez, defendem, em seus seminários, encontros, documentos culturais, congressos, posições antagônicas às daqueles setores. Assim é preciso combater tal aumento de prestígio, não tanto porque seja ou não justa a greve dos estudantes, mas porque tais estudantes tomam, em geral, atitudes muito perigosas para certos interesses em jogo.
A coisa torna-se mais clara quando vemos o conteúdo de tais editoriais: trata-se de atacar, através da greve, o que seria uma posição dos estudantes em favor de plenos poderes para o atual Gabinete, o que, em sendo questão partidária, os obrigaria a dividirem. Mas quando a UNE fez tal declaração de apoio, pelo contrário, não interessa à UNE tal debate político, senão na medida em que possa implicar em qualquer risco para a legalidade – legalidade que foi defendida muito claramente em agosto do ano passado. Só interessa à UNE que o Congresso permita uma decisão sobre sua reivindicação – que é a de um terço nos colegiados.
Mas certa imprensa, para quem a calúnia não é um instituto de direito penal mas de legislação comercial (assim como a concordata ou a sociedade anônima), não quer saber disto: importa-lhe enfraquecer os estudantes, como deseja enfraquecer todos os que se lhe opõem. E apesar de todo o seu poderio consegue pouco, quase nada. É que o velho Lincoln tinha razão: “não se engana todos, todo tempo.” Seus apetrechos, seus recursos, suas (seus?) picaretas (ou seus IPES) nada podem contra a montanha. A não ser, talvez que uma pedra venha lhes cair sobre a cabeça. O que vale é que a editorialistas cuja cabeça é muito dura e não há inteligência que as abale...
De resto, um terço ou greve até o fim. Para dar início a uma das mais importantes reformas d base, que é a da universidade. Quanto às arengas de alguns reitores e às campanhas de alguns jornais, estamos tranqüilos: calados, a maioria dos mestres sabe que os alunos querem cooperar, e nada mais; atentos, grandes jornais, mesmo quando nos divirjam (por exemplo: Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Última Hora, para só citar alguns) sabem que divergir não é ofender. E que notícia não é arma para manobrinhas rendosas dos que defendem a inglória tese de que o preço da opinião é a eterna imoralidade.
Cesar Guimarães


Suspensão da Greve

praticamente estava imprensa e já havia mudado a situação exposta no informe . O Conselho Nacional dos Estudantes, órgão legislativo da UNE, resolveu suspender o movimento grevista. Motivos: a crise nacional, então agravada com o pedido de delegação de poderes e rumores alarmistas, poderia levar os estudantes se verem envolvidos numa participação política que de modo algum seria de seu agrado.
Nosso informe continua atual, porém, enquanto mostra quão acertada é a reivindicação de um terço – pela qual continuaremos a lutar – e enquanto analisa a atitude de certa imprensa em relação à UNE. Pensávamos, apenas, que tais jornais fossem mais influentes. Toda a sua campanha não conseguiu mais que afastar da UNE 5 das quase quinhetas faculdades de todo país.
O que nos demonstra que a divulgação da mentira pode ser imensa, mas que sua influência diminui mais e mais, à medida em que o público começa a compreender que esta imprensa de alto custo não merece qualquer crédito.
Cesár Guimarães


P.26
Vinicius Caldeira Brant – Depoimento

Consagrado a unidade em torno de uma chapa única para a direção da UNE, o XXV Congresso Nacional dos Estudantes demonstrou a maturidade já alcançada pelo movimento universitário brasileiro. Tal conclusão é possível em virtude de que a unidade vitoriosa não foi produto de um “conchavo,” bem sucedido, de um cambalacho de ocasião – pelo contrário, ela surgiu de cada uma das bancadas estaduais, como idéia-força coletiva, impondo-se, a partir dos representantes da esmagadora maioria das escolas superiores do país, até mesmo aos atritos eventuais das lideranças.
Longe de nós, porém, imaginar que a unidade, feita em torno de um mínimo de princípios e a partir do cotidiano trabalho comum, elimina a heterogeneidade e divergência. Pelo contrário, divergência e heterogeneidade são estados que, presentes, ainda mais reforçam a união realizada – fruto do diálogo constante.
Desta forma, não é estranhável, por outro lado, a ocorrência, neste momento, de campanhas da imprensa, alicerçadas em minorias desmoralizadas, visando a divisão do movimento estudantil brasileiro. Campanha que se aproveita e que explora as críticas, muitas vezes respeitáveis, feitas por alguns setores universitários à UNE ou a outras entidades estudantis, cujos erros ainda são inúmeros e contra os quais todos temos que lutar. As campanhas das minorias ocorrem neste momento, exatamente porque elas se sentem incapazes de, por si sós, participarem do diálogo político e cultural com a ampla maioria dos estudantes.
É assim que surgem ou são reavivadas determinadas associações ditas “de juventude”, cujos fins, expressos ou tácitos, são todos orientados para jogar estudantes contra estudantes não ao nível da divergência ou até da radical oposição – que isto é fazer democracia – mas ao nível do ataque inconsequente, do divisionismo que a todos enfraquece – mas que fortalece estas mesmas minorias ativas.
Este problema, porém, não assume uma importância maior para nós. Sabemos quanto são artificiais estas campanhas de imprensa e como, apesar de todo o poderio de que dispõem setores nelas interessadas, nada conseguirão senão abalar uns poucos estudantes que assim encontrarão mais um motivo para, no momento emque souberem quem faz tais campnhas, serem ainda mai ligados às suas entidades representativas – diretórios, uniões estaduais de estudantes e UNE. Para nós, o problema é consolidar a unidade conseguida e, continuando o trabalho da gestão Aldo Arantes, fazer um trabalho que realmente represente os 100 mil universitários brasileiros, que esclareça ainda mais a todos nós.
Para tanto, temos, eu e a nova diretoria da UNE, planos que envolvem, sobretudo, um trabalho cultural verdadeiramente profícuo. Diga-se de passagem que recusamos qualquer “analtismo” ao encararmos o trabalho cultural, pois este contem conotações políticas e sociais evidentes. Pensamos, por exemplo, em organizar, já e já, um Congresso Operário-Camponês-Estudantil, como fito de dar a cada um dos setores sociais participantes a exata noção das respectivas reivindicações. Estamos ainda organizando nossa participação nas próximas eleições de outubro, voltada não para atividades de ordem político-partidária, que a tal a UNE não deve nunca se propor, mas a um trabalho sobre a democratização eleitoral, vale dizer, contra o poder econômico, o voto de cabresto, a negação do voto analfabeto e outros fenômenos responsáveis pelo baixo grau de autenticidade da vida política nacional.
Não será esquecida igualmente a formação dos quadros intelectuais e políticos para o movimento estudantil – seminários, grupos de estudo, formação de assessorias, tais algumas das iniciativaque estão planejadas.
O que é mais importante, porém, é da continuidade à reversão do método de ação do movimento estudantil: tudo o que fizermos há de ser feito visando fortalecer as uniões estaduais dos estudantes e os diretórios acadêmicos, substituindo o contato eventual da UNE com estas entidades por uma presença ativa e permanente tanto quanto atenta e responsável.
Cabe, aqui, fazer referência ao atual estágio de luta estudantil e às perspectivas do movimento universitário. Vivemos, hoje e aqui, uma fase pré-revolucionária do processo brasileiro. As contradições brasileiras estão aí, complexas, a exigirem solução, superação, progresso. Cabe aos estudantes participarem do momento presente lutar, alcançar vitórias. A nova fase não admite mais cúpulas radiclizadas mas afastadas de suas bases num divórcio virtual, porque neste momento quem se apresenta de forma radical é a própria realidade brasileira, atingindo com seus problemas todas as camadas sociais do país, entre elas os estudantes. As atitudes do movimento universitário, neste momento, só podem ser aquelas que sistematizem e esponham o que vai na consciência de cada estudante e dos estudantes como um grupo social. A vanguarda só é vanguarda por que, se permitem a tautologia, vai à frente de alguém, que a segue conscientemente, e não como um rebanho. Em nossa atividade na UNE desejamos que cada estudante tenha uma crítica a fazer, uma ação a desempenhar, neste momento em que todos são chamados à definição e à luta.
A imprensa divulgou, quando da recente eleição da nova diretoria da UNE, que o novo presidente era também cristão. Devo aproveitar a oportunidade para retificar meu testemunho pessoal de cristão, talvez um pouco diferente do comum dos chamados “cristãos” que pregam uma cristianismo sem conseqüência e sem obras. Estou na luta como cristão, sou cristão porque luto e dou o testemunho da coerência entre o que digo, penso e faço a bem de meu país e de meu povo. Como cristão aprendi a não discriminar pessoas, a lutar com todos, independentemente de seus rótulos ou títulos, desde que estejam orientados para uma luta justa e necessária, que afinal nde contas é a luta do próprio povo brasileiro por dias melhores, mais humanos. O cristão para mim é aquele que consegue ser universal, como sua mensagem, que consegue se unir ao fundamental com aquilo que é fundamental para todos os homens. Neste sentido entendo a frente de esquerda, da qual sou prticipante consciente. E não vejo outra forma que não esta de lutarpela libertação popular, meta almejada por aqueles que vêem no futuro não a continuação linear do presente, mas a superação deste num tempo do homem recociliado consigo mesmo.
Esta frente não engloba a todos: porque uma coisa é o dialogo dos que visam atividade comum, o debate e a controvérsia, não apenas no plano teórico, mas igualmente no plano de agir, outra é atitude das correntes que desejam o diálogo, e sima exclusão das demais. A verdade é uma só, mas certamente há vários caminhos para chegar a ela: com este pensar, atuam todos os que se encontram unidos nesta frente de trabalho. Mas não se unem àqueles, a nós, os que têm a verdade como algo a impor, a partir da falsa premissa de que alguém pode possuí-la sempre absolutamente: o farisaismo, o sectarismo, a estreiteza mental, o fanatismo, a discriminação por todas as suas formas, a imposição de idéias, tais algumas da modalidades de consciência retrógrada que não pode se unir nem dialogar com o movimento universitário naquilo que tem de mais lúcido, naquilo que nele é mais presente.
Neste sentido é plena de ensinamento a já existente unidade no movimento universitário. O momento é de entendê-la, é de reforçá-la e ampliá-la ainda mais. É, finalmente, de ampliá-la às demais áreas populares e consoldar, em vasta faixa popular, abrangendo enfim todo povo, a luta comum pela supressão dos entraves à realização efetiva do que é verdadeiramente humano nos homens. Em cada pessoa.

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