terça-feira, 11 de março de 2008

DEPOIMENTO DE SERAFIM CARVALHO MELO A OTÁVIO LUIZ MACHADO

DEPOIMENTO DE SERAFIM CARVALHO MELO A OTÁVIO LUIZ MACHADO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
LABORATÓRIO DE PESQUISA HISTÓRICA
DEPOIMENTO DE SERAFIM CARVALHO MELO A OTÁVIO LUIZ MACHADO
Depoimento realizado pelo projeto “A Atuação do Diretório Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto - o desenvolvimento e o radicalismo entre 1956 e 1969”.
ENTREVISTADOR: OTÁVIO LUIZ MACHADO
DEPOENTE: SERAFIM CARVALHO MELO
LOCAL: CUIABÁ-MT/OURO PRETO-MG POR ESCRITO
DATA: JUNHO DE 2002

FICHA TÉCNICA

Entrevistado: Serafim Carvalho Melo
Tipo de Entrevista: Temática
Entrevistador: Otávio Luiz Machado
Data: junho de 2002
Duração: entrevista por escrito s. t.
Observação: a última questão foi inserida em julho de 2004.
Equipe
Levantamento de dados: Otávio Luiz Machado
Pesquisa e elaboração de roteiro: Otávio Luiz Machado
Técnico de gravação: entrevista por escrito
Proibida a publicação no todo sem autorização.
Permitida a citação.
A citação deve ser textual, com indicação de fonte.
Permitida a reprodução.
Norma para citação:
MACHADO, Otávio Luiz (org.). Depoimento de Serafim Carvalho Melo a Otávio Luiz Machado. Ouro Preto: LPH/UFOP/Projeto “A Atuação do Diretório Acadêmico da Escola de Minas de Ouro Preto - o desenvolvimento e o radicalismo entre 1956 e 1969”, 2004.




OTÁVIO LUIZ MACHADO*: qual seu nome completo?

SERAFIM CARVALHO MELO: Serafim Carvalho Melo
Qual sua profissão?

Sou Engenheiro Geólogo, formado em 1.970. Colei grau em 6 de março de 1.971.

Qual sua idade?
60 anos.

Quais cargos que ocupou enquanto estudante?

Vice-Presidente, Secretário e Presidente do Diretório Acadêmico da Escola de Minas (DAEM), no período de 1968 a 1969. Como Presidente do DAEM, representei o corpo discente na Assembléia Universitária, na Congregação da Escola, na Comissão de Legislação e Ensino encarregada de elaborar o horário escolar e na Comissão de Patrimônio da Escola que se encarregou – além de outras coisas – de adquirir casas para instalação de Repúblicas de estudantes da Escola de Minas. Depois que saí do Diretório, em agosto de 1.969, trabalhei no Departamento de Geologia, para organizar o acervo de obras doadas ao mesmo pela viúva do renomado geólogo Luciano Jacques de Moraes. Antes de integrar a Diretoria do D.A. (Diretório acadêmico), respondi pela publicação do Jornal do DAEM, "O Martelo". Participei também de comissões da SICEG (Sociedade de Intercâmbio e de Estudos Geológicos).

Quais suas atividades atuais?

Sou Professor-Adjunto da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), desde março de 1980, no Curso de Geologia, lecionando as seguintes disciplinas: “Recursos Energéticos” e “Noções de Legislação e Economia Mineral”. Nos últimos anos participei ou ainda participo de diversos trabalhos, como no Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Planejamento Energético (NIEPE), Sindicato das Indústrias de Extração de Calcário de Mato Grosso (SINECAL), na Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso (FIEMT), no SEBRAE-MT, no Instituto de Defesa Animal de Mato Grosso (INDEA), no Conselho Estadual de Meio Ambiente (CONSEMA), no Conselho Estadual de Ciência e Tecnologia e no Conselho Diretor da Universidade Federal de Mato Grosso.

Qual sua cidade natal?
Jataí, Goiás.

Quando chegou em Ouro Preto para estudar?

Estudei em Jataí até o Ginásio, em 1.959. O 1º ano científico, em 1.960, fiz na Associação de Ensino em Ribeirão Preto-SP. Em 1.961, fui para Ouro Preto, e estudei o 2º e 3º científico no Colégio Alfredo Baeta. Em fevereiro de 1.963, fiz uma única prova no vestibular da EMOP (Escola de Minas de Ouro Preto). Depois fiz o cursinho preparatório da EMOP, até setembro, quando fui desclassificado, e não consegui voltar nos meses seguintes. Em fevereiro de 1964, voltei a fazer uma única prova no vestibular, e não consegui aprovação. Eu não fazia o segundo vestibular, porque não sentia segurança para passar. No resto do ano fiz de novo o cursinho, e em fevereiro de 1.965, depois do xeque-mate de minha família, resolvi fazer vestibular em Ouro Preto e em Belo Horizonte. Passei nos dois, e optei pela EMOP. Eu não fazia outros vestibulares também porque não tinha grana para viajar, e porque também tinha a perspectiva de ganhar bolsa de estudo da CAGE (Campanha para Aperfeiçoamento de Geólogos) para o curso de geologia, que era uma campanha para formação de Geólogo. No ano que entrei encerram-se as bolsas, e felizmente a Escola não tinha mensalidade. A bolsa cobria as despesas de alimentação e moradia em Ouro Preto. Meu primeiro ano de universitário, em 1.965, foi perdido já no primeiro semestre, devido às extensas comemorações, como os trotes. Enfim, a falta de orientação do sistema de avaliação da Universidade. Acho que o calouro se mantém numa vibração muito intensa ele se esquece destas questões.

Como era a Escola de Minas de seu tempo? Quais eram os pontos fortes e fracos da Escola?
A Escola inteira tinha cerca de 220 alunos no curso de Engenharia Geral, que era de seis anos e estava em extinção, e também, nos cursos novos de cinco anos: Engenharia Geológica, Engenharia de Minas, Engenharia Metalúrgica e Engenharia Civil. Era muito forte a tradição e muito respeitado o nome Escola de Minas de Ouro Preto no cenário Nacional e internacional, principalmente na Europa. E particularmente na França, devido a sua origem. A Escola de Minas tinha autonomia, mas não tinha arrojo. As soluções eram caseiras e tímidas, e sempre procurando os ex-alunos. Por isto mesmo havia muita discriminação no meio discente seja dos filhos de professores, seja dos filhos de ex-aluno. Se não fosse um destes era discriminado. Esta situação a meu ver era um ponto fraco. Lembro-me, como Presidente do D.A., que fizemos um levantamento da situação da Escola e levamos para o Ministro da Educação, Jarbas Passarinho. Em rápida folheada do relatório, a sua análise foi a de que se podia classificar a Escola de Minas como uma "Sociedade entre Amigos". Por isto que trabalhamos muito no D.A. para criação da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), através de diversas audiências com os Ministros de Educação da época, tanto em Brasília, como no Rio de Janeiro. Queríamos abrir mais vagas e mais cursos para os estudantes brasileiros. A Universidade era a alternativa. Entretanto, tínhamos contrários na própria Escola, que achava que a UFOP viria descaracterizar as tradições da EMOP. Realmente isto poderia ocorrer e acho que ocorreu. Mas e daí? Seria válido mantermos um "clã" cheio de privilégios em detrimento de uma maioria sedenta de educação superior de qualidade? E em nome de uma tradição? Outro ponto fraco é que alguns professores, que moravam em Belo Horizonte, faziam da EMOP um bico. Não sou contra o profissional Professor. Acho que ele traz muita experiência para a escola que o Professor profissional não traz, porque nunca trabalhou fora da sala de aula. Entretanto, colocavam para a escola a condição: “eu quero minha aula segunda feira às 16 horas e terça-feira às 7,30 horas”. E depois sumia de Ouro Preto, comparecendo só na semana seguinte. Um ponto forte da Escola era a condição de vida de seus alunos. E as oportunidades de relacionamento com trabalhadores de Saramenha, com mineradores, etc. Os engenheiros de Ouro Preto têm muito mais sensibilidade para as relações humanas na empresa que qualquer outro. Ter no meio da atuação e dos estudos cachaça em botequim é uma escola natural na vida de qualquer um. Claro com responsabilidade e sem vício.

Como era o Diretório, quais os principais pontos de discussão, os desafios do Diretório para aqueles anos da década de 60 em diante?

Quando entrei para o D.A., em março de 1967, achava que era totalmente cru em tudo. Não sei porque me convidaram para substituir o Mário Rosa, que era Vice-Presidente, e que passou a ser auxiliar de professor, cujo nome correto do cargo não me recordo. Admirava meus colegas antecessores pelo nível de politização como o (José) Pauly Rezende, o Jacques Hersovic, o Nuri (Andrauss), Mário Rosa, Fernando Azambuja e outros que não me lembro agora. Discutiam muita política partidária, mas não eram de PSD (Partido Social Democrata) ou UDN (União Democrática Nacional), os partidos da época. Falavam do PC do B (Partido Comunista do Brasil), que era chinês ou do PC (Partido Comunista) que era da Rússia, algo assim que eu não tinha base e nem para falar nada. Ouvia muito e me colocava como um inocente útil confiante em meus amigos. Fazia panfletagem de madrugada e participava de reuniões reservadas nas repúblicas, enfim, acompanhava meus colegas da Diretoria do D.A. como um aprendiz obediente e disciplinado. Talvez estivesse aí o motivo de terem me convidado para o D.A. Em agosto de 1967, assim eu tomava posse no D.A. como 1º Secretário, com Lincoln Ramos Viana na Presidência, Athaualpa Valença Padilha como Vice-Presidente, Benedito França Barreto como 2o Secretário, Douglas Senju Morishita como 3o Secretário, e César Epitácio Maia (atual Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro) como Tesoureiro. Ganhamos esta eleição do Diretório Acadêmico por sete ou oito votos de diferença. Recordo-me que, nas primeiras reuniões da Diretoria, eu disse que teríamos de fazer um trabalho voltado para as questões internas e de interesse dos estudantes, sob pena de perdermos a próxima eleição. Uma das estratégias foi me colocar Presidente da Comissão de Trote de 1968, pois as eleições seriam em agosto. Outra foi o acampamento dos estudantes na Praça Tiradentes, solicitando moradia da Escola, também liderado pelo D.A. Em 1968, assim ganhamos novamente a eleição. Eu fui candidato único a Presidente, tendo Fidêncio Maciel de Freitas como Vice-Presidente, Reginaldo Pires Rodrigues como 1o Secretário, Pedro Maciel Tavares como 2o o Secretário e Maurício José Danese como Tesoureiro. Lembro-me muito do Pedro Mola (Pedro Carlos Garcia Costa), do Cansado (José Luiz Carvalho Coelho), do Sansão (Armando Cordeiro), que eram de uma República muito atuante politicamente, a Castelo dos Nobres. O Pauly, a quem me referi era desta república. Conhecia quase todos os alunos da Escola devido o estreito relacionamento que mantinha com todos, independentemente de política. Acho que política partidária só se deve fazer dentro dos partidos. Como Presidente do D.A. procurei dar continuidade ao trabalho voltado para as questões internas da Escola sem uma conotação partidária. Até hoje nunca assumi nenhum partido político. Lógico que não sou contra quem os assume. Só acho que os políticos colocam muito, ou melhor, colocam primeiro o interesse pessoal depois os dos correligionários e depois os do Estado ou da sociedade. Por isto mesmo, em detrimento da qualidade, da economia de algo, seja material ou de tempo, trocam tudo de tempos em tempos, em nome da renovação etc. Por quê? Por que não tinha uma Lei como a da Responsabilidade Fiscal. Esta vai provocar muitas mudanças nesta maneira de governar. Em virtude das leis vigentes na época e do desmantelamento das entidades estudantis como a UNE (União Nacional dos Estudantes), que passou a atuar na clandestinidade, os DCEs e os próprios DAs a alternativa era atuar nas questões internas mesmo. Eu fui detido três vezes, embora não tenha tido uma atuação forte como adversário da revolução de 31 de março. Embora Presidente do D.A. eu não participava de movimentos de “subversão da ordem” como outros estudantes, alguns de Ouro Preto de Ouro Preto, que participavam de assaltos a bancos, passeatas onde quer que ocorressem. Acho que o golpe castrou uma geração de estudantes que poderiam ser os renovadores da política brasileira. Por isto que depois de trinta anos ainda deve falar para votar em (Leonel) Brizola, Antônio Carlos Magalhães (ACM) etc.

O Diretório na sua gestão coincidiu com o início do AI-5? Tiveram dificuldades de atuação estudantil?

Tínhamos inclusive um colega que demonstrou em várias ocasiões uma postura de “espião” dentro da Escola de Minas. O chamávamos de “Capitão Evando”, que na verdade era um tenente da Polícia Militar de Minas Gerais que também era estudante de Engenharia Civil. Veja como ele atuava: certa vez os alunos do primeiro ano estavam com dificuldades com o professor Cristiano Barbosa em relação à Cadeira de Química. Eram 143 alunos com notas péssimas. Não me recordo mais o motivo que deu início ao trabalho com eles. O certo é que toda semana reunia pessoalmente com eles na boate do CAEM após o almoço para tratarmos do problema. Falava, ou melhor, tratava a questão à luz do Regimento da Escola e do Diretório sobre o que poderíamos fazer em defesa dos alunos. Todos os 143 iam às reuniões semanais. Depois de um certo tempo, cerca de dois meses, resolveu-se por unanimidade que eles não fariam a prova de química. Como o professor não
concordou em mudar a data, eles não fariam a mesma. Só um furou a decisão. Um certo dia depois desta prova num sábado eu chegava de um trabalho de campo e fui interpelado pelo Evando de que eu estava incitando os alunos à subversão. E que isto poderia complicar minha situação não só no Diretório mas na Escola. Eu simplesmente lhe respondi: “estou cumprindo o regimento Interno do DA e aquilo que nos favorece o Regimento Interno da Escola. Você não os conhece”. Não nos falamos mais. Os alunos tiraram zero e a prova foi cancelada pela Congregação, onde tive assento por três anos. Éramos realmente muito policiados. Tivemos um movimento vitorioso, que foi o acampamento das Republicas na Praça Tiradentes reivindicando casas para os alunos da Escola. Deu resultado, porque a partir dele a Comissão de patrimônio da qual fazia parte com mais dois professores iniciou a compra de casas para se fazer repúblicas. A preferência era comprar casa de professores da Escola. Eu como sempre era voto vencido. O preço era alto, mesmo que ainda que avaliado pela Caixa Econômica. Mas comprava assim mesmo. Outra conquista em favor de trabalho para os estudantes foi a aquisição pela Escola de uma Kombi, que foi colocada a disposição do Restaurante da Escola, que era Administrado pelo D.A. Ela servia para ir a Belo Horizonte toda semana comprar verdura para o restaurante. Antes isto era feito por uma camionete similar a uma C-10, mas quando a mesma estava livre. Havia muitos problemas com isto e encarecia, pois tinha que pagar táxi de Belo Horizonte para Ouro Preto para transportar as compras toda semana. Com esta Kombi mandei os administradores do D.A. em Viçosa fazer um cursinho, ou melhor, um treinamento com nutricionistas daquela escola visando melhorar o boião do REMOP. E foram quatro colegas numa quarta-feira, para retornarem a Ouro Preto até domingo a noite. Quando chego na escola para aula na segunda-feira de manhã, o Diretor da Escola me chama em seu Gabinete e me dá a noticia de que a Kombi fôra presa na zona de Viçosa na quinta-feira à noite. Até então eu não sabia de nada. Foi muito ruim, porque eu não podia argüir em nada que pudesse defender os colegas. Aliás, na Congregação era só cacete contra estudante. Ainda assim, às vezes ganhava alguma por uma posição de coerência. Como defender quem vai para a zona a noite com carro chapa branca? Outra refrega difícil que tivemos foi com o Professor Joaquim Maia, que resultou no meu enquadramento pelo decreto-lei 477 com mais alguns colegas quando terminávamos o 5º ano de Engenharia Geológica1[1]. Eu sempre defendi a participação de alunos e de professores em Congressos de Geologia, principalmente os dos últimos anos. Em 1.969 completamos o ônibus que levava o 5º ano ao Congresso de Salvador. Como eram somente cinco alunos, lutei com o professor para completar o ônibus com os do 4º Ano, que eram da minha turma. Com muita má vontade o Professor Clovis Delbux, então chefe do Departamento de Geologia e da excursão, concordou. Fomos e tudo bem. No ano seguinte, o Congresso foi em Brasília. Eu era o representante de turma. Na primeira aula combinamos com o professor Maia o calendário das provas da disciplina “Tratamento Mecânico dos Minerais”, disciplina semestral e do segundo semestre. E que o mesmo só seria alterado com aviso e com antecedência. Quando lembrei do Congresso que seria no final de setembro, então fui falar com o professor para alteramos uma prova que coincidiria com o Congresso, e porque nós iríamos no mesmo. Ele não concordou, embora já estivéssemos autorizados pelo Departamento e pelo Professor Murta, como chefe da viagem. Fui ao Diretor pedir o ônibus e conseguimos. Nós éramos 23 alunos. Um destes, o Antônio Eleutério de Souza, que era repetente não concordou em perder a prova, pois estava dito pelo Maia de que não teria outra, e quem não a fizesse era “zero”. Ele ficou e nós entendíamos a situação dele em não correr o risco de perder mais um ano. Todo mundo levou zero, e a partir daí iniciou-se uma briga entre a turma e o professor, a ponto dele deixar as aulas e as próximas provas para o assistente, do qual não me recordo o nome. Mas era daqueles que só dizia amém. A partir de então ninguém tirava nota acima de seis. Veja, que de repente um dos melhores alunos da Escola, José Fortes, que tirava 9 e 10, passou a tirar 5 e 6. Resultado: ficamos todos os 22 de segunda época no 5º ano. Por isto que a colação de grau foi no dia seis de março de 1.971. Na segunda época requeremos uma banca examinadora sem o professor titular e sem o professor assistente. Foi certamente o mais difícil embate que tive na Congregação. Mas ganhamos. Em virtude de tudo isto ele me denunciou e sugeriu o enquadramento no 477 dizendo que eu liderava um movimento de subversão na Escola, juntamente com outros colegas do 5º ano. O Secretário Executivo do Ministério da Educação, Professor Newton Sucupira foi a Ouro Preto tratar do caso e me disse: “aluno não é santinho, não. Vocês serão punidos pelo Regimento da Escola por indisciplina em sala de aula, porque se fosse verdade que vocês estivessem se reunido e fazendo subversão, o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e o Conselho de Segurança Nacional teria que cair, pois vocês estão se reunindo e eles não sabem de nada”. Em síntese, minha relação com a direção da Escola era respeitosa. Eu sempre tenho comigo que a gente tem que respeitar o cargo, e naturalmente quem o ocupa, por mais adversário que seja o ocupante. Fazer oposição em nível elevado, sem ironia e desrespeito. Com isto eu também era tratado com o devido respeito na Congregação e fora dela. Não colava nas provas para não dar margem a um professor no debate me acusar de colador. Bebia minhas cachaças, mas como Presidente do Diretório não podia fazer baderna ou coisa que o valha. Sinceramente, não me lembro muito de discutir política partidária no D.A. Até porque, com a extinção dos partidos políticos aos quais não pertencia, restava discutir a favor ou contra o golpe, ou melhor a ditadura. Como não tinha suficiente nível de politização restava trabalhar para a classe nos problemas de interesse mais imediato, como por exemplo selecionar estudantes carentes para bolsa da Fundação Gorceix, que às vezes dava bolsa para estudantes que não mereciam, porque nas férias iam passear na Europa com a família, enquanto outros que moravam muito longe se quer iam em casa nas férias porque não tinham dinheiro. Esta relação entre D.A. e direção da Escola era muito pessoal. Creio mesmo de empatia. O Diretor Pinheiro (Antônio Pinheiro Filho) achou que quando levei o relatório da situação da Escola para o Ministro Jarbas Passarinho eu o havia traído, mas nem por isto deixou de me receber. Ir para Ouro Preto estudar era como que ir para qualquer outra idade. No meu caso, a família da gente não sabia que se tratava de uma escola tradicional e famosa etc. Só em Minas Gerais, ou melhor, mais em Minas Gerais é que esta fama corria. Acho que morar, ou melhor, estudar em Ouro Preto é um privilégio, pois a cidade é uma escola da vida. Fiz muitos amigos e tinha muitas famílias de Ouro Preto, que também eram minhas amigas. Não criticava as “nativas”, como muitos faziam, simplesmente porque via os veteranos as criticarem. Enfim, aprendi de tudo em Ouro Preto, na república e na Escola.

O Capitão Evando assumiu o cargo de Delegado Especial de Capturas em 1965, e era estudante de engenharia da Escola de Minas a partir deste período, inclusive com poder de requerer informações sobre os estudantes da Escola de Minas. Parece-me que o seu Diretório Acadêmico ainda teve grandes problemas em termos de regimento?
No período de três anos que estive no Diretório como Vice-Presidente, Secretário e Presidente, bem como representante do corpo discente na Assembléia Escolar, depois de ter saído do Diretório, tivemos dificuldades na aplicação do seu Regimento Interno, pois alguns artigos batiam de frente com os AIs-5 da vida. Como já lhe disse, em uma Assembléia do DA, ele se levantou e ameaçou prender todo mundo se uma determinada decisão fosse votada. Não me recordo mais do que se tratava. Creio que era voto de protesto a alguma figura do golpe de 1964. Não sei se felizmente ou infelizmente não foi votada, mas não devido a ameaça, mas por julgar talvez inoportuna. Não recordo mais. Com ele bati de frente na condução de uma posição de alunos de 1o ano, com relação ao Professor Cristiano (Barbosa), de Química. Eu me recordo que eram 144 alunos e só um furou o movimento por não fazer a prova, posteriormente defendida por mim na Congregação. E aí ganhamos novamente. A primeira foi a vitória que tivemos em relação ao Professor Joaquim Maia, que resultou na ida do Secretário-Executivo do MEC, Professor Newton Sucupira, a Ouro Preto. E posteriormente a minha suspensão por sete dias, juntamente com mais seis colegas de turma.



Serafim, com um “passado político” ligado à esquerda neste momento de ditadura militar, passou por dificuldades para entrar no mercado de trabalho?
Esses eventos quase me detonaram, ao ser contratado pelo DNPM (Departamento Nacional de Pesquisa Mineral), em 1971. Esperei três meses para ter uma autorização para ser contratado. Certamente devido às cartas do Diretor-Geral da EMOP, Professor Pinheirinho (Antônio Pinheiro Filho), e do Professor Moacyr do Amaral Lisboa.

Qual era a relação institucional entre o DAEM e a direção da Escola de Minas?

Nossas relações no meu exercício de Presidente do D.A. foi relativamente boa, porque como disse, eu não fazia política partidária. Eu fazia política estudantil de fato. É lógico que numa análise mais profunda, sem as mudanças nas diretrizes da política nacional para acabar com a ditadura, só a política estudantil não resolveria nada, ou melhor, não ajudaria muito para a mudança do regime. Como eu não tinha a politização suficiente não praticava a política partidária como até hoje, seja como Presidente do Sindicato dos produtores de Calcário Agrícola de Mato Grosso, seja como Diretor da Federação das Indústrias no Estado de Mato Grosso. Faço política empresarial respeitando o poder constituído e reivindicando melhores condições para a produção industrial no caso, como a redução de impostos e a criação de programas específicos que objetivem o desenvolvimento do setor que represento.

A criação da UFOP era vista como ponto fundamental de crescimento das escolas isoladas, a saber, a Escola de Minas e a Escola de Farmácia?
Sim, o objetivo maior era criar melhores condições para mais estudantes entrarem na Universidade. E ampliar o número de vagas, criar mais cursos, melhorar os já existentes etc.
Por que a UFOP demorou dez anos para sair do papel? O que impedia a sua consolidação?
Acho que faltou poder político interessado na sua criação e consolidação. A construção, por exemplo, do novo prédio foi um parto. Ora por falta de dinheiro, ora a dúvida pela concepção arquitetônica do mesmo, destoando da arquitetura colonial de Ouro Preto. Não sei bem porque ficou tanto tempo no papel. Aliás, este tempo que você se refere eu não sabia.
Havia um espírito universitário em Ouro Preto (digo em termos de integração entre todos os estudantes e cursos)?
Entre os alunos da EMOP era integração absoluta. Com os da Farmácia, só com as alunas. Os estudantes das duas Escolas se rivalizavam muito, e não se entrosavam. No futebol era uma guerra mesmo. Todo tempo havia pau entre os estudantes.
Como era viver em uma república de estudantes de Ouro Preto nos anos 60?
Era uma escola de vida. Havia muita solidariedade e muita amizade entre os moradores e umas com as outras. Às vezes se rivalizavam, ou melhor, discriminavam por questões políticas. Eram repúblicas de verdadeiros alienados que não participavam de nada. Era da república para a escola e vice-versa. Ou eram de "dedo-duro". Afora isso, o ambiente era dos melhores. Algumas tradicionais hospedarias de mulheres que vinham do Espírito Santo, ou mesmo do interior de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, que juntamente com as mineiras eram as preferidas, e as de São Paulo, as mais chatas e metidas.


A Escola de Minas começava a adquirir repúblicas neste período?

Foi a partir mais fortemente, depois do acampamento na Praça Tiradentes que a escola começou a comprar casas para republicas. Antes já existiam algumas republicas da Escola, mas eram muitos poucas.

As repúblicas de Ouro Preto se inspiraram nas tradicionais repúblicas de Coimbra, Portugal?

Não sei. Estive em Portugal em janeiro de 2.000, e visitei Coimbra e a sua Universidade. É Ouro Preto puro em termos de arquitetura, inclusive a biblioteca. Só não tem o ouro que tem na de Coimbra.
A compra de repúblicas era uma reivindicação dos estudantes? De qual forma? Ou era um ato da Direção da Escola de Minas?
Foi uma decisão da Direção da Escola, mas pressionada pelos estudantes.

A república em que morou foi fundada em qual ano?

A República ADEGA foi fundada em 11 de março de 1963, quando ainda fazia o cursinho. Antes morávamos no casarão da Rua do Rosário lá no Rosário, segundo diziam, o primeiro hotel de Ouro Preto. Lá moramos três ou quatro anos, e depois fomos como que colocados na rua, pois quem cuidava do casarão recebeu uma determinação da família proprietária para desocupar a casa. Ficamos um bom tempo procurando casa para alugar até que encontramos uma com sala e dois quartos, cozinha e banheiro no "Beco das Galinhas", que ficava lá no Rosário mesmo. A casa era de Dona Maria, mãe do Professor Jair de Carvalho. Veja que ironia. O galinheiro da dela ficava na frente da porta da cozinha de nossa casa. Debaixo da casa dela tinha a República Saci, onde moravam o Antonio Eleutério, o Cesarino Cavalcanti, que é do Amapá, e por falta de grana não ia em casa nas férias, e o Artur, que casou com a Neide, filha de Dona Maria. Eles eram os preferidos de Dona Maria. Na ADEGA moravam o Benedito França Barreto, seu irmão Ernesto Barreto, o Carlos Bueno, o Ademilson Carvalho, meu primo que estudou apenas um ano e retornou para Jataí, um outro irmão dos Barretos, que também estudou um ano e retornou para Cuiabá. Quando entramos para a Escola ainda continuamos no Beco das Galinhas até 1967, quando eu já estava no Diretório como Vice-Presidente e ganhamos a casa da Escola, onde até hoje se encontra a ADEGA. Para ela foram o Cesarino e o Eleutério da República Saci, e o Urias Francisco de Lima (Grandão), um conterrâneo de Jataí, que na época morava conosco. Inicialmente morávamos em sete. Depois com ampliação, éramos dez. A localização era estratégica: debaixo da Zona e com fundo de frente para a Delegacia, que nos causou sérios conflitos com o Delegado e com a Vila de Professores, que ficava na parte baixa da cidade próxima da delegacia. Tínhamos uma boa atuação no Diretório e no Centro Acadêmico, e naturalmente nos demais órgãos em que se fizesse necessária à representação discente da Escola de Minas. Muito boa atuação também com as visitantes. Sempre recebíamos caravanas das “Moças de Azul e Branco”. Por isto mesmo tínhamos uma classificação: os que pegam e os que não pegam. Dos que pegam ainda subdividíamos: os que pegam e seguram, e os que pegam e não seguram.

Qual era a situação da Casa do Estudante da Escola de Minas perante o DAEM?
De total independência. Aliás, ela ficou muitos anos como que inativa. Eu nunca tive relacionamento, ou melhor, nunca me inteirei do que era e como funcionava. Sei que tinha estatuto, mas nunca me informei sobre ela.


Sempre existe uma discussão sobre as repúblicas no que tange ao acesso de vários cursos além da Engenharia. E se questiona a administração das repúblicas pelos próprios estudantes, a chamada autonomia. Qual sua opinião acerca das repúblicas hoje?
Quanto à administração das repúblicas e critério de acesso às mesmas, creio que esta decisão deve ser de cada república. Quem escolhe os moradores novos são os atuais e os próprios moradores. Quanto ao aluno ser ou não da EMOP, é a Republica quem também deve decidir, pois a Universidade pelo próprio nome abrange o universo dos alunos. Acho que tudo é uma questão de empatia. Quando era EMOP e Farmácia, décadas atrás, aí sim não se deveria misturar. Mas agora é uma Universidade. Então do ponto de vista da propriedade, é única. Antes eram repúblicas de propriedade da EMOP e da Escola de Farmácia, perfeitamente distintas. Sem maiores aprofundamentos, é isto que eu penso.

Serafim, voltando um pouco sobre a UFOP, alguns ex-alunos trabalharam para a sua efetivação e criação, enquanto outros, contrários e até trabalhando para a sua não efetivação2[2]?

Não me recordo quem era contra a criação da UFOP. Tenho certeza que o Carlos Walter e o Damásio no Rio de Janeiro, nos apoiava bastante nesta tarefa e em outras pela melhoria do padrão de ensino etc. O Professor Walter Kruger, como disse não tenho certeza de sua posição bem como do Prof Moacyr do Amaral.

O Jornal O Martelo era um importante veículo na EMOP3[3]?

Uma de minhas primeiras atividades no Diretório, ou melhor na Escola, foi cuidar de "O Martelo", a partir de 1965, ano que entrei na Escola. Acho que ele retrata toda relação do Diretório com a direção da Escola.

Serafim, sobre o Antônio Dias Leite, você seria o orador quando mesmo? O Antônio Dias Leite chegou a ser paraninfo duas vezes? O que mais sabe sobre o relacionamento dele com Ouro Preto4[4]?

Nossa Colação de Grau, da turma de 1970, foi dia 6 de março de 1971, no Cine Teatro de Ouro Preto, local onde se realizava tradicionalmente as solenidades de colação de grau da EMOP. Esta data se deu em virtude da segunda época de 23 alunos de Geologia, na disciplina do Prof. Maia, Tratamento Mecânico dos Minerais. Esta história já lhe contei. Se o Antônio Dias Leite foi paraninfo outras vezes eu não sei. Para nossa turma, foi devido à criação por ele da CPRM. Também não sei do relacionamento dele com Ouro Preto, se é que existe.

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