sexta-feira, 16 de maio de 2008

Entrevista de Mércia Albuquerque: A advogada dos mil processosJornal do Commercio – 30.01.1989


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A advogada dos mil processosJornal do Commercio – 30.01.1989
Você assistiu à prisão de Gregório? Lembra-se do dia em que ele foi posto em liberdade?
E quem enviou o cobertor para Gregório quando ele saiu do Brasil?
Como foi a prisão de Cândido?
Por que você é tão criticada?
Qual a participação de seu irmão militar?
Cândido foi baleado na descida da ponte
A advogada Mércia Albuquerque vem recebendo dezenas de telefonemas, a propósito dos depoimentos ao repórter Ronildo Maia Leite, sobre episódios políticos das décadas de 60 e 70. A sua narração envolve muita gente e está montada em cima de valiosa documentação e que está sendo organizada para se transformar em um livro, de dois volumes, já contratato com uma editora de São Paulo.
Entre os telefonemas, alguns anônimos. E, claro, de ameaças. Mércia não se preocupa e hoje está continuando com seu depoimento. Fala da prisão de Gregório Bezerra e do dia em que o líder comunista foi encaminhado para o exílio na Europa. Relembra os lances dramáticos da madrugada em que o estudante Cândido Pinto foi baleado, quando passava pela ponte da Torre.
Muito a propósito, o editor de Memória/Hoje registra aqui uma intenção bastante clara: o espaço está aberto a todas as pessoas, de qualquer tendência ideológica. O objetivo do Jornal do Commercio é contar a história política do Recife através das pessoas que nela estiveram envolvidas, diretamente. Assim, prosseguimos, na certeza de que a história do povo pelo próprio povo deve ser contada.

Você assistiu à prisão de Gregório?
Lembra-se do dia em que ele foi posto em liberdade?

Mércia – Praça da Casa Forte, 1964. Avistei Gregório Lourenço Bezerra. Quase desnudado. Usava apenas um calção. Do pescoço de Gregório, saía uma corda com três pontas. Três jovens militares arrastaram o líder comunista.
Gregório sangrava principalmente de um ferimento na cabeça e pela boca. Dava-me a impressão de que iria cair, mas o lendário comunista caminhava. Abria o cortejo o Cel. Darci Villocq Viana, que agitava algo que me pareceu um cano de ferro. Cheio de um ódio urgente, concitava o povo para linchar Gregório, a multidão presente fazia-se ausente àquele macabro convite. Quando o velho cambaleava, abria os braços para manter o equilíbrio, recebia coices de fuzil. Não gosto de falar nisso.


E quem enviou o cobertor para Gregório quando ele saiu do Brasil?

Mércia – Recebi um cobertor usado das mãos de uma operária. Lembro-me de um detalhe, tinha bastante varizes nas pernas, não me recordo o nome dela, e me pediu que o entregasse a g. era a hora da partida e coloquei-o nos ombros, carinhosamente, o agasalho. Disse-lhe que uma operária lhe mandara. Abraçou-me muito sério. Nos despedimos.
A Polícia Federal colocou-o num Volks. Saiu primeiro o carro da polícia. Corri para a rua e gritei para a imprensa: “Gregório vai no Volks”. A polícia queria frustar a imprensa.
Fui presa na ponte que liga as ruas Nova e da Imperatriz. Fui para o DOPS. Lá estava o jornalista Ricardo Noblat e outras pessoas. A noite esfriou. Vestia um vestido leve. Noblat havia recebido alimentação e roupa e emprestou um paletó de pijama num gesto carinhoso e deu-me alimentação.
Como foi a prisão de Cândido?
Mércia – Cândido Pinto de Melo, conheci-o bem jovem, quando se envolveu no primeiro processo, n.º 80/66, juntamente com Henrique Roberto Ramires Pinheiro da Silva, Aécio Marcos Medeiros Gomes de Matos, Frederico Jayme Kartz e Luciano Dourado.
Sobre Cândido pesava a acusação de ter participado de um Tribunal Popular na Faculdade de Engenharia para julgar colegas acusados de delação. O que houve na realidade foi uma assembléia geral de associados, na própria escola, onde compareceram centenas de alunos, onde trataram da reabertura do restaurante da escola, a posição assumida por dois colegas que serviram de testemunha num IPM, contra outros estudantes; decisão quanto ao funcionamento do chamado “Curso Heitor Maia”, dispensa do vestibular para pessoas portadoras de outros cursos superiores. Dessa Assembléia, resultou a aplicação de sanções internas aos dois estudantes tidos como delatores – a decisão foi tomada pela expressiva votação de 400 votos contra 11.
Cândido tinha apenas 18 anos e era secretário do Diretório Acadêmico. Depuseram como testemunhas de defesa de Cândido o Major Pedro Paulo Cantalice, José Britto Passos Júnior e José Roberto Rios Leite.
Como testemunhas de acusação, depuseram Luiz Antônio de Andrade Bezerra, Maria Angela Campelo de Melo, Bruno Rodrigues de Castro e Ítalo Tadeu de Carvalho Freitas. A denúncia oferecida pelo promotor Francisco de Paula Aciolly dizia:
“O Inquérito Policial Militar anexo apurou com muita segurança a situação perniciosa do desvio trotskista da linha do partido comunista, agindo segundo a sua técnica no setor estudantil, consoante a instrução do que foi decidido em reunião Tri-Continental de Havana, tendo como ponto mais visado e pertinazmente trabalho da Escola de Engenharia”.
Na residência de Cândido, foram apreendidos vários documentos manuscritos, referentes à Escola de Engenharia, ata de eleição de representantes de turma, relação de alunos, uma nota de compra da Livraria Colombo no valor de Cr$ 14,300, um livro de atas e um folheto “Resolução Política dos Comunistas”.
Cândido foi condenado a um ano de detenção. Votaram pela absolvição o presidente do Conselho, Major José Luiz Jaburandi e o capitão Ronaldo José Leite. Funcionou como auditor Dr. Amilcar Cardoso de Meneses que votou pela condenação de Cândido. O julgamento foi em 18.04.67.
Cândido era inteligente, discreto, consciente da situação política do País, liderava realmente os colegas.
28.04.69, aproximadamente às 22 horas, na parada de ônibus da Ponte da Torre, onde Cândido esperava um transporte, passou uma rural Willys. Um elemento mascarado saltou e desferiu-lhe dois tiros. O primeiro atingiu-lhe a face, o segundo o ombro e a coluna vertebral, seccionando-a tinha 21 anos e cursava o 4º ano de Medicina. Estava em vigência o AI-5.
No dia 28.04.69, à tarde, esteve na residência de Dona Elinor, mãe de Cândido, a moça Risoleta Cavalcanti para convidá-lo para ajudá-la a organizar um festival de arte e uma quermesse.
Primeiros socorros. Um táxi que o transportou para o Pronto Socorro, onde permaneceu entre três a quatro dias, sendo transferido para o Hospital Pedro II, onde permaneceu até junho de 1969. Em agosto, foi para São Paulo, para o Hospital da Beneficência Portuguesa pelo INPS.
Ao receber a notícia do atentado, Dona Elinor, mãe de Cândido, passou no hospital e depois veio avisar-me. Fui para o Pronto Socorro e senti que eram graves os ferimentos pela fisionomia dos médicos. Já haviam policiais por toda parte.
Cândido quando foi para o Hospital Pedro II, a ambulância foi seguida por vários carros da polícia. Começou um período muito difícil. Pessoas estranhas apareciam, querendo entrar no quarto. Os amigos e a família muito vigilantes. A tudo que era barulho estranho durante a noite perto da janela do quarto, uma série de pressões para aterrorizar.
Dr. Miguel D’Hert dedicou-se ao paciente corajosamente, incentivando Cândido, ajudando a família, sempre disposto a atender, a ouvir o enfermo. Uns oito dias depois que Cândido chegou ao hospital, observei que as pernas dele se movimentavam sem o comando do cérebro. Era como se tivesse vida independente. Consultei um médico amigo, que me disse apenas: “não tenha ilusões”. Não comentei com ninguém, nem com Rosa, a noiva dedicada, mas fiquei transtornada, desesperada com a tragédia.
Chegaram centenas de cartas de vários países, contestando a violência e solidários com Cândido.
Colaborou na defesa de Cândido o advogado Paulo Arguelles Costa. Cândido ficou sensível à infecções urinárias e precisava de um antibiótico difícil de ser encontrado. Várias pessoas colaboraram, trazendo o medicamento, principalmente um padre louro que tinha uma cicatriz no pescoço. Nunca perguntei-lhe o nome.
Todos já sabiam que Cândido estava paralítico. Mesmo assim, foi denunciado em um novo processo. Cheguei a viajar para São Paulo acompanhando o conselho, na ocasião em que foi interrogado, para dar-lhe assistência e apoio.
Sei que Cândido concluiu o curso de Engenharia e trabalha no Sul. A última vez que o vi foi na missa de Dona Elinor Melo, minha amiga muito querida. Acredito que esteja bem.
Um fato que me lembro agora. No primeiro processo que Cândido respondeu, Roberto Ramires, na hora da sessão secreta, fugiu. No momento da leitura da sentença, o auditor perguntou-me por Cândido e Roberto. Respondi-lhe que não sabia onde estavam. À noite fui presa, para “confessar” onde estavam os clientes. Presa na rua, quando chegava em casa. No dia seguinte, me dirigia para o banheiro com dois agentes, quando Teócrito Guerreiro me avistou. Discretamente, se aproximou e se inteirou que estava presa. Imediatamente comunicou a OAB. Não esqueço o gesto amigo do colega Dr. José Neves, foi à secretaria, levou-me livros, revistas, deu-me um pouco de segurança.
Por que você é tão criticada?
Mércia – De repente começou chegar chocolates, doces, frutas, e até flores que os colegas mandavam. Fui liberada, sem explicações.
Sofri muito e continuo sofrendo com essa participação política, sem estar preparada para assumir um papel de tanta responsabilidade.
Veja bem, tenho um irmão militar, que sempre foi contra a minha participação na defesa do perseguido político, preocupado comigo, e achava que havia influenciado Sandino a participar da política estudantil. Não rompeu relações, pois somos amigos, e eu sabia dos riscos que ele corria naqueles tempos difíceis quando nos encontrávamos, íamos a um bar e falávamos da nossa família. Tenho um primo legítimo, meu primeiro afilhado, também militar, que se afligia quando eu era presa. Afastei-me dele para não prejudicá-lo. E tem mais, tratei a esposa dele grosseiramente para romper a amizade, para protegê-lo, porque em uma das minhas prisões perguntaram-me se o conhecia . até hoje, não falo com ele e isso me magoa. Sou madrinha de mais duas irmãs dele e filho da tia que mais gosto. Uma das vezes, estava detida na SSP-DOPS, então recebi uma coca-cola e dois sanduíches, do jeito que gosto. Pensei que teria vindo de casa e passei a receber coisas que usava, que gostava, nada desconfiei.
Na hora da saída, lá estava minha ex-aluna que me abraçou e chorou, contou-me uma história de vida muito triste, e também me disse integrar a Polícia Feminina. Ajudou-me, inclusive no caso de Luciano Siqueira. Tenho por ela carinho, o mesmo de quando, adolescente, estudava comigo. Mantive uma influência grande na vida dela. Deixou a polícia, é advogada. Tive uma surpresa interessante: indo ao DOPS, visitar um cliente, encontrei com o rapaz que se criou praticamente comigo em Alagoas, bem mais moço que eu, e perguntei-lhe: “Você está preso?”. Ele riu. “Quem vai ficar presa é você; sou delegado”. Conversamos muito sobre Alagoas e esse careta, sempre que podia, atendia-me e me disse muitas vezes: “Você vai me prejudicar”, e quando não podia atender dizia “não é possível”, e tínhamos brigas sérias. Ajudou muita gente. As pessoas radicais me criticam por manter as minhas amizades.
Lembro-me agora de uma das greves de fome dos presos políticos. Veio de João Pessoa Nizi Marinheiro, que conseguiu convencer o procurador Acyoly ir com ele até aos presos. Nizi tentou convencê-los a terminar a greve, o que não foi de pronto atendido. Nizi é herói de guerra, perdeu uma mão quando retirou uma granada do grupamento, tendo ela explodido, levando sua mão. Era meu amigo, e eu o mantinha informado da tramitação dos processos dos clientes dele e fatos que aconteciam com os presos. Uma noite, Nizi me telefona e pede-me para localizar Xanha – Alberto Vinicius de Melo, que não se sabia onde estava. Logo o localizei no IV Exército com outros presos, Xanha tomando soro e tremia muito. Acredito que estava em choque. Nizi era advogado de Vinicius e tomou as providências legais. Quando puder falarei da luta dos estudantes aqui nem Pernambuco, Paulo Pontes, Ramires Maranhão, Marco Burle e outros.
Boris, sempre me apoiou. Certa vez, fiz um requerimento e faltou-me palavras para argumentar. Boris levantou-se e disse o que eu desejava. O Auditor ficou zangado, ganhamos o pleito. Não posso esquecer o carinho de Regina, sua esposa. Chegava lá, ela convidava-me para almoçar, aceitava, sempre me oferecia um lanche, eu sempre aceitando, não dispunha de dinheiro para restaurante, os clientes não podiam pagar. Boris sempre colaborou, lendo minhas defesas, orientando-me nas petições. Era a alegria da auditoria. Certa vez, iniciou uma defesa, homenageando as mulheres das casas de luz vermelha. O Auditor, Dr. Teles, protestou. E Boris, rindo, perguntou se ele não havia frequentado aquelas casa. O Auditor não respondeu. Estávamos participando do julgamento de Porto – o sindicato ficava no 2º andar de um prédio próximo ao porto; no 3º andar um bordel e, no térreo, um bar “Cova da Onça”, Boris dizia: “Que estranha subversão, em cima as mariposas, e embaixo perigosos felinos”. E eu ria.
Certa vez, Carlos Moreira vai visitar um cliente no Quartel de Olinda. Diz o Coronel: “Dr. O senhor pode falar, mas nada de contato físico”. Responde Carlos Moreira: “Tá me estranhando coronel?”. O contato físico era não trazer correspondências.
João Batista Fonseca e Dermeval Lelys estavam sempre me defendendo, quando os militares me acusavam de comunista. Os primeiros advogados na auditoria Boris Trindade, Toinho de Brito Alves, Nilzardo, Carlos Moreira, eu e Fernando Tasso.
Qual a participação de seu irmão militar?
Mércia – Sandino de Albuquerque Ferreira era presidente do Diretório Acadêmico da Universidade Rural. Meu irmão, dez anos mais novo do que eu, e muito querido. Estudava Veterinária e começou a participar da política estudantil. Chamei-o e preveni-lhe dos riscos que corria, sobretudo por ser meu irmão. Ele decidiu continuar. Atraiu a fúria do Reitor, Cláudio Martiniano Ferreira Selva. Passou a ser perseguido.
Em 07.04.69, através da Portaria n.º 07, assinada pelo professor Humberto Vernet, foi suspenso 180 dias das atividades escolares porque protestava e denunciava as irregularidades na escola.
No dia 30.04.69, Sandino e os seguintes colegas eram citados com base no Decreto 477/69 para defenderem-se. (Em um só mês Sandino era punido duas vezes pelo mesmo fato), José Gomes de Lima, Jailton Balleino dos Santos, Gregório Isaac Macedo, Veramilton Almeida da Silva, Petrônio Correia Sodré, Geraldo Paes Vasconcelos, Glauco Augusto Duque Porto, Antônio Castanha Souza, Alberto Soares da Silva, Marcelo Apolinário de Oliveira, Nailton Tenório da Costa, Relúcio José Pinheiro Mendonça, Helenice Pereira Tavares, Roberto Leite Targino, Rosemary Alves de Almeida, Etevaldo Balbino da Silva, Paulo Eduardo de Andrade, Joaquim Xavier de Araújo, Absolon Pedroza Bezerra, Mareval Rodrigues de Lima, Plínio Vasconcelos Brito, Jarbas de Araújo Pires, Valmir Costa.
Sei que muitos não conseguiram concluir o curso, outros mudaram de curso, outros se engajaram em partidos clandestinos.
Em 17.05.69, os jornais publicavam a cassação por três anos de Sandino e seus colegas. Só as duas moças escaparam.
Geralmente, se encontrava 30 agentes policiais na entrada da Universidade Rural. Era uma provocação.
Sandino e Moura fugiram para Alagoas, passaram um mês escondidos numa escola agrícola. Depois, procuraram o grupo de AP e pediram ajuda. A ajuda seria dada, com a condição que ingressasse na AP. Sandino e o colega não aceitaram. Voltaram para Recife, passaram a viver escondidos em casa de amigos. Sandino, como Moura, não tinha filiação política. Sandino continua sem ser filiado em partido de esquerda ou de direita. É independente. Moura eu não sei.
As casas dos amigos eram vasculhadas, meu filho Aradin, de apenas quatro anos ameaçado de morte, a polícia me seguindo, uma ciranda satânica.
Viajei para Fortaleza, para funcionar no processo de Ivanildo Sampaio Xavier. No dia seguinte, Sandino veio à minha casa, imprudentemente, ver minha mãe. Começou a assistir a minicopa Brasil e Portugal. Recebeu um telefonema. Era alguém dizendo que Moura queria falar com ele na Faculdade de Direito.
Apesar da advertência de mamãe, ele saiu e foi sequestrado pelo DOI-CODI e sumiu. Estava no meio da audiência no dia seguinte em Fortaleza, quando fui chamada ao telefone. Mamãe deu-me a notícia. Tranquilizei-a. conclui a audiência e viajei para o Recife.
Comecei a luta para avistar o meu irmão. Depois de uns cinco dias, recebi um telefonema anônimo que ele seria liberado naquele dia. À noite, Sandino chegou, a roupa rota e muito machucado. Até o ano passado ainda tinha as marcas das algemas no pulso.
O interrogatório foi direcionado para a minha atuação de advogada. Queria a polícia pararela DOI-CODI saber o por quê da minha dedicação ao perseguido político. Ele não falou nada que me comprometesse ou comprometesse alguém.
Abracei o meu irmão longamente, queimava em febre, tinha equimose em todo o corpo, não falei nada, ele também ficou em silêncio, estava alicerçado ali, um amor muito maior.

Um comentário:

josé antonio disse...

já tinha ouvido falar através da imprensa a defesa dos presos políticos, feito pela doutora mércia albuquerque, hoje, vim a conhecer mais detalhes da vida da doutora mercia . minha gratidão e saudades pela sua ação a favor dos oprimidos da ditadura militar.