quinta-feira, 14 de agosto de 2008

MEMÓRIAS E EXPERIÊNCIAS DO EXÍLIO


MEMÓRIAS E EXPERIÊNCIAS DO EXÍLIO

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”
Fernando Pessoa



Foi dura e difícil a experiência de viver asilada.
No entanto, por mais terrível que tenham sido as perseguições, não as desejo a meu maior inimigo.
O medo de não voltar, o medo de morrer longe de casa corroeram-me a alma. Tudo o que desejava à época era o travesseiro de terras brasileiras, como D. Pedro
II.

SALVA PELO MACHISMO

Voltando de Cuba para Santiago do Chile, dia 11 de setembro de 1973, fui apanha-da pelo golpe, sem documentação e sem falar espanhol.
A A.L.N. (Ação Libertadora Nacional) tinha me designado como companheira de fachada de Domingos Fernandes, que acabara de chegar da Itália, para onde fora banido em razão do sequestro do embaixador alemão.
Na quinta noite após o golpe, com toque de recolher e já sem nenhum lugar para ir, resolvemos voltar às torres de San Borja, onde estava o comando da Junta Militar. Lá, o aparelho da nossa organização, que já tinha sido revistado – nosso único abrigo.
Ao passarmos pelo controle militar, à entrada das Torres, os carabineiros olharam para o belo terno, o bigode e cabelo de corte europeu, além do passaporte italiano de Domingos. Em seguida, o jovem guarda pediu meus documentos (inexistentes). O capitão chileno olhou-me maliciosamente e disse: “Tudo bem!”, e fez sinal com a mão liberando minha passagem. Com minhas longas tranças negras, era uma jovem índia mapocha sendo salva pelo cavalheiro euro-peu.

CHILE – O SOM DA TERRA SE RASGANDO

As memórias do Chile são sonoras. Pela poesia de Neruda e pela doce música de Violeta Parra. Mas o tenebroso som dos tanques, rasgando o asfalto, despertava nosso instinto de sobrevivência. Já tínhamos visto o massacre da resistência democrática, nos corpos fuzila-dos nas ruas e nos cadáveres boiando no Rio Mapocho.
Os golpistas foram mais eficientes que nós. Como militantes da A.L.N., no exílio, fazíamos parte da resistência e estávamos no grupo dos Helenos do Altamirano, senador socia-lista chileno. Iríamos resistir nos prédios ao lado do Palacio de la Moneda. Infelizmente, quan-do soubemos do golpe, pela madrugada, ainda que tivéssemos corrido, não conseguiríamos che-gar ao centro de Santiago. As pontes tinham sido fechadas pelos militares.
Voltamos para casa, queimamos documentos e tentamos nos articular com a Re-sistência chilena. Durante vários dias esperamos pelas tropas democráticas que viriam do Sul. O Chile e a Resistência viviam um suicídio heróico.
A resistência, no quinto dia, nos sugeriu o exílio. O que eles tinham de infraestru-tura não era suficiente para sua própria sobrevivência. Enfim, no sexto dia, entramos na Em-baixada da Argentina, debaixo de tiros, mas vivos.

CHILE, TERREMOTO, ARGENTINA E ACNUR

Já na Embaixada tivemos, além do apoio deplomático, a proteção do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), que salvou a vida de milhares de latino-americanos, perseguidos naqueles dias como terríveis terroristas. O trabalho foi incan-sável, nos refúgios e nos contatos com outras embaixadas. A Embaixada da Argentina chegou a receber mais de 800 exilados.
Em uma fria noite chilena o imponderável trouxe-nos um perigo a mais – o terre-moto.
Acordei com os gritos dos chilenos e os solavancos de Domingos, que tentava me arrancar da cama (um pequeno tapete em um vão de escada). Eu resistia: “Quero dormir!” Era enorme o alarido e grande a correria dos chilenos e peruanos, que conheciam bem a fúria da Mãe Natureza.
Nossa alimentação, embora escassa, era garantida pelo ACNUR. Nos primeiros dias, obviamente, ninguém teve apetite. Cabia-nos a limpeza feita em turnos, a vigilância e o trabalho na cozinha, oportunidade de comer um pouco mais.
O Governo Argentino nos asilou, sob uma condição. Iríamos para Buenos Aires, mas teríamos que optar pelo exílio em outro país. A Argentina criara uma nova categoria ju-rídica, a do “asilo em trânsito”. Só os chilenos tiveram asilo político.

MARIONETES DO PODER MILITAR ARGENTINO

Após dois meses na Embaixada da Argentina, embarcamos em um avião militar – mulheres sentadas de um lado e homens de outro.
Estávamos crentes que voávamos para “mi Buenos Aires querido”, mas fomos surpreendidos pelo aviso do comandante de que pousaríamos em Poço de la Patria, em Cor-rientes. Afinal, éramos peças de um jogo político-militar mais complicado do que imagináva-mos.
Liderados pelo General Carcaño, os militares nacionalistas argentinos, que sem-pre temeram o “imperialismo brasileño”, diante da pressão de nossos militares para não nos deixarem ficar na Argentina, resolveram usar-nos como bucha de canhão. Para provocá-los, alojaram-nos em frente da fronteira brasileira. Era só atravessar o Rio Paraná a nado e esta-ríamos em casa. Assim, por meses, o ACNUR teve suas mãos atadas, embora o General Perón no poder representasse um fortalecimento da corrente nacionalista.
No começo de dezembro chegamos a “El Nosocomio”, um hospital psiquiátrico em reforma, que seria nosso lar por muitos meses até o ACNUR conseguir levar-nos para hotéis populares no centro de Buenos Aires.

A ARGENTINA PAROU E CHOROU POR UM GENERAL

A morte de Perón, em 1º de julho de 1974, parou a Argentina.
Comovedora e nunca vista foi a reação do povo à perda de seu líder. Era impac-tante ver-se mais de 4 milhões de argentinos, chorando, em fila e vigília por três dias, debaixo de fina chuva e frio, para render sua última homenagem a Perón.
A tudo assistimos de um lugar privilegiado. Nosso hotel na Avenida de Mayo, a dois quarteirões da Casa Rosada.
O ACNUR salvou milhares de vidas, não só retirando os perseguidos políticos do Estádio Nacional, mas protegendo-os e guiando-os até um porto seguro, de modo que não ape-nas suas vidas fossem salvas, mas suas dignidades resgatadas. O Sr. Odrich Hasselman, chefe do escritório do ACNUR para a América Latina e seu adjunto, Sr. Gomez Fyns, diplomata uru-guaio, foram de inestimável e irrestrita solidariedade para conosco.
Logo após a morte do General Perón, a violência e o terror aumentaram na Argen-tina. Muitos exilados começaram a ser sequestrados. Do Peru, recebemos a visita de um jovem funcionário do ACNUR, Sérgio Vieira de Mello, que foi a Buenos Aires para inteirar-se de nos-sa situação e reunir-se com os exilados. O terror tornou necessária e urgente a saída da Argen-tina.
Além mar aconteceu o 25 de abril - a Revolução dos Cravos em Portugal.
O ACNUR que nos protegera, albergara e sustentara, agora forneceria os passa-portes de refugiados, já que o governo de Isabelita não resistiu à ofensiva da ultra direita. O go-
verno argentino nos pagou as passagens para irmos embora. E, em virtude dos sequestros e retiradas de perseguidos em avióes que faziam escala técnica no Brasil, optamos pela “Rota do Pacífico”.

A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS

Em 25 de abril, dia da revolução dos capitães, fomos levados ao exílio em Portugal. Era quase como estar em casa, um privilégio não só pelo calor humano.
A Revolução dos Cravos era um sonho de liberdade sem armas ou tiros. Lisboa passou a ser a confluência dos exilados latino-americanos, sobretudo de brasileiros. Era uma Lisboa revolucionária, mística. Todos os exilados, políticos, artistas, intelectuais e seus familia-res convergiram para participar da festa revolucionária e a Grandola Vila Morena passou a ser o hino de todos nós.

LISBOA E SEUS FADOS

Lisboa era o Chiado, o Rossio e toda a Baixa de Lisboa, era Alfama, o Castelo de São Jorge, Belém e o Parque do Príncipe Real. Os bondes nos recordavam o Rio antigo. As praias, apesar de geladas, nos encantavam, nem que fosse só para molhar os pés nas costas do Estoril ou da Caparica.
Como era bom ouvir falar o português. Era como voltar a falar a lingua materna – o nosso “brasileiro”.
Não éramos prioritários para o governo. O país estava atolado com os “retorna-dos” que voltavam das cinco colônias agora livres: Angola, Moçambique,Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Em poucos meses, cerca de um milhão de portugueses voltou para casa a força.


29 DE SETEMBRO DE 1979

Chegou a hora de voltar. Deixamos tudo para trás: trabalho, estudos, amigos e amores. Mais uma vez fizemos as malas. Não importava quantas vezes começáramos do zero. Chegara a hora da partida, ou melhor, a hora de voltar para casa. Novos sonhos nos enchiam a alma.
No vôo celebrávamos o fim de um longo exílio. A aeromoça da Varig não entendia o motivo de tanta alegria e como alguns podiam beber tantos guaranás, até no café.
Nossa despedida fora enfeitada com os cravos vermelhos da Revolução de Abril. Alguns capitães, deputados socialistas e os fundadores do Comitê Brasileiro Pró-Anistia nos abraçaram e nos encheram de flores.
Voltamos deixando um pouco de nossos corações em solo português.

AS LIÇÕES

O exílio serviu de aprendizado de vida para mim.
As experiências e provações ensinaram a ter paciência. Aprendi que a acei tação é transformadora, que transmuta e que só há um momento – o aqui, agora.
Houve uma confirmação na vivência na clandestinidade – a de viver cada momen-to como se fora o último, em intensidade total.
O perdão é uma conquista da maturidade, um resgate das provações.
Aprendi a perdoar meus perseguidores, mas também a perdoar-me. A não sentir-me vítima e a ter consciência e responsabilidade.
Hoje sei relevar e só lutar pelos princípios e pelo essencial. Agir e reagir com a flexibilidade e a sabedoria do bambu.
Aprendi a dançar aos ventos e tempestades e que somos um todo.
E que a solidariedade é a essência de um mundo de Paz e Justiça.






Um comentário:

Anônimo disse...

Caros amigo,
Vocês poderiam dizer de onde foi retirado tal depoimento?
É que estudo o tema e entrevistei outras duas pessoas que estiveram na mesma embaixada argentina.
Obrigado.
Alexandre Fiuza
alefiuza@terra.com.br