terça-feira, 26 de agosto de 2008

Artigo A UNE E A UNIÃO (Por Otávio Luiz Machado



Recife, 19 de Agosto de 2008
A UNE E A UNIÃO
Otávio Luiz Machado
Foi com as seguintes palavras que o escritor Gabriel Gárcia Marquez lançou uma mensagem aos jovens em 1999 na França: Não esperem nada do século 21, pois é o século 21 que espera tudo de vocês. É um século que não chega pronto da fábrica, mas sim pronto para ser forjado por vocês à nossa imagem e semelhança. Ele só será glorioso e nosso à medida que vocês sejam capazes de imaginá-lo (França, em 1999). Quando pensamos na necessária chance aos jovens para que possam se expressar e participar nos mais diversos espaços da sociedade brasileira, obviamente temos que trazer a questão do respeito às diferenças e à pluralidade de temas que envolve os jovens hoje em dia. No caso da União Nacional do Estudante (UNE), que é comandada sem interrupção há cerca de 20 anos pela União Juventude Socialista (UJS) do Partido Comunista do Brasil (PC do B) a nossa ditadura civil-militar durou 21 anos , a falta de diálogo com a juventude universitária é brutal, pois o mesmo grupo se reproduz utilizando-se de uma máquina burocrática criada exclusivamente para servir de correia de transmissão da rotina de um minúsculo partido político, que efetivamente orienta as ações na entidade. Por isso, desde 2003 a sua pauta de atuação é dada pelo governo federal. Governo e UNE, juntos, criticam fortemente setores do movimento estudantil que querem debater o País, tendo como melhor exemplo a visita da presidente da UNE a algumas universidades em 2007 para defender projetos de interesse do governo federal. Na ocupação da reitoria da Universidade Federal de Pernambuco deu o seguinte depoimento aos estudantes que estavam acampados: Essa oposição ao Reuni encontra eco na elite e em setores da classe média que não querem a ampliação de vagas nas universidade. (...) Espero que saiam de lá. Estão atrapalhando a vida acadêmica. Recentemente, juntamente com a presidente da UNE, no 1º Encontro de Estudantes do Prouni do Rio Grande do Sul, foi a vez do ministro Tarso Genro atacar os estudantes: Os radicalóides adotaram o mesmo discurso das elites. Quando setores do movimento estudantil além da UNE procuram canais de debates sobre a reforma universitária, o que estão reivindicando está de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que é um documento construído há 60 anos atrás: “artigo 26: Toda pessoa tem direito a uma educação de qualidade, que garanta o pleno desenvolvimento de personalidade. O governo federal, inclusive, agora está sendo acionado para financiar a obra da nova sede da UNE por sua direção. Aliás, foi o próprio governo federal que recentemente financiou um projeto de reconstituição da história da UNE, cujo resultado final foi a instrumentalização política da história e do esquecimento simultaneamente, ao colocar de lado toda a experiência acumulada em pesquisas acadêmicas sérias em seu projeto. Também indo ao desencontro de outro princípio da Declaração Universal dos Direitos Humanos: artigo 27: Toda pessoa tem direito a participar da vida cultural e receber os benefícios do progresso da ciência. O financiamento público de um projeto de R$ 40 milhões para um único grupo da nossa sociedade será um verdadeiro atentado ao interesse público. É urgente, sim, que o Estado pague a dívida com a juventude ao construir formas de registro e de difusão da memória dos movimentos juvenis, pois a falta de registros de depoimentos dos principais líderes estudantis do nosso País, e o risco de perda da documentação histórica estudantil, já é um único indicativo de que precisamos ter pressa em fazer algo que seja realmente de interesse do País. Pois é com tais trabalhos que vamos animar a sociedade a apoiar outras iniciativas e a ter de fato o direito à memória e a verdade! E com conhecimento e reflexão que poderemos viver de fato num país mais democrático e soberano. É com apoio efetivo às mais diversas juventudes hoje e não apenas ao grupo que comanda a UNE que iremos pagar a dívida com os jovens brasileiros.
Otávio Luiz Machado é mestrando em Sociologia da UFPE e coordenador de atividades do projeto A engenharia nacional, os estudantes e a educação superior: a memória reabilitada (1930-85)

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