sábado, 17 de novembro de 2007

Formação de Professores - PROFESSOR LAURO MORHY

Formação de Professores - PROFESSOR LAURO MORHY

Resumo da participação do Prof. Lauro Morhy (*), representante da SBPC, no Seminário sobre a Formação Inicial e Continuada de Professores, realizado pela Comissão Bicameral do Conselho Nacional de Educação em 19-10-2007, no Auditório Anísio Teixeira-CNE, Brasília, Distrito Federal.

1.) Cumprimento a todos os membros desta mesa, a todos os presentes, especialmente aos membros do CNE, e agradeço, em nome da SBPC, o convite para participar deste seminário, cuja finalidade é obter contribuições da comunidade educacional e da sociedade organizada, para o aperfeiçoamento e mesmo formulação de novas bases de uma política de formação inicial e continuada de professores, compatível com os novos tempos.

2.) Nos últimos tempos tornou-se freqüente dizer que estamos vivendo um processo histórico de globalização acelerada, do qual não se pode fugir; que é preciso mudar tudo e viver em sintonia com o novo quadro mundial; que é preciso superar o atraso e sermos inovadores e competitivos.

Não será demais acrescentar que estamos vivendo mais uma revolução do conhecimento, para uns a terceira, para outros a quarta. Temos agora a Internet e a WEB, com todos os novos recursos tecnológicos que as acompanham, e que são sub-utilizados ou mal utilizados. Na verdade, recursos da revolução passada ainda não foram devidamente utilizados.

Todo esse processo histórico, complexo, atropelador e irrefreável, tornou-se um desafio grandioso e que requer cuidados especiais. É verdade que precisaremos também inovar nas estratégias de trabalho. Entretanto, não devemos desconsiderar as já existentes e bem conhecidas, muitas das quais não chegaram a ser usadas, devidamente usadas, ou experimentadas. Nestes casos já seria inovação usá-las bem, adequá-las e aprimorá-las.

3.) Acho que, sobretudo nos últimos setenta anos, o nosso sistema educacional foi muito estudado e criticado. Não faltaram diagnósticos. E temos hoje bons diagnósticos, bons especialistas, embora haja divergências entre eles. Mas isso é bom, já que “a unanimidade é burra”.

As diretrizes adotadas em momentos críticos da nossa história educacional nem sempre foram as melhores, como hoje sabemos. Algumas até já nasceram um tanto obsoletas, após longos e tensos debates, que até exauriram os debatedores, partindo-se mesmo no final, para soluções açodadas ou que foram consideradas mal engendradas, como aconteceu, a nosso ver, com a última LDB.

4.) Já foram estabelecidos princípios norteadores pelo CNE para a formação de professores como :

I - a competência como concepção nuclear na orientação do curso;

II - a coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do futuro professor, tendo em vista:

a) a simetria invertida, na qual o preparo do professor, por ocorrer em lugar similar àquele em que vai atuar, demanda consistência entre o que faz na formação e o que dele se espera;

b) a aprendizagem como processo de construção de conhecimentos, habilidades e valores em interação com a realidade e com os demais indivíduos, no qual são colocadas em uso capacidades pessoais;

c) os conteúdos, como meio e suporte para a constituição das competências;

d) a avaliação como parte integrante do processo de formação, que possibilita o diagnóstico de lacunas e a aferição dos resultados alcançados, consideradas as competências a serem constituídas e a identificação das mudanças de percurso eventualmente necessárias.

III - a pesquisa, com foco no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que ensinar requer, tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como compreender o processo de construção do conhecimento.

Seriam esses princípios suficientes para reformar o sistema formador de professores da educação básica ?

5.) Uma nova realidade se impõe. É hora de rever estratégias e princípios, mesmo os bem reconhecidos e aceitos. Evitem-se camisas-de-força e normas congeladas ou imutáves. Preservem-se os valores essenciais, mas tendo em mente que a nova dinâmica da história exige adequações e mudanças rápidas. E como proceder mudança tão grandiosa e complexa, de modo a atender à nova realidade ?

A sabedoria humana ensina que o reducionismo vale a pena, quando não se abandona a preocupação com o todo ou a sua plenitude. Foi assim que ciências complexas, como por exemplo a bioquímica, avançaram e continuam avançando. Então experiências de mudanças educacionais podem ser realizadas em âmbitos menores, nos Estados e Municípios, com bom planejamento nacional e controle de avaliação, mas de tal modo que possam logo ser multiplicadas. Teríamos então verdadeiros “clusters” formadores de professores e de inovação educacional em âmbitos municipais, estaduais e mesmo regionais, integrados por centros renovadores (Universidades e outras instituições educacionais), que realizariam a modernização do sistema educacional brasileiro continuamente. Tudo dentro de princípios gerais que permitam experiências locais e regionais inovadoras, devidamente planejadas e acompanhadas.


6.) Busque-se para isso um arranjo inter-institucional em nível de Estados e Municípios, com instituições públicas e privadas, que permita a formação de professores com perfil profissional compatível e sintonizado com a atualidade, e de modo a atender às realidades regionais e locais. Diretrizes e parâmetros curriculares devem assegurar a formação básica, mas também permitir as adequações que forem necessárias. Todo o trabalho planejado, acompanhado e avaliado, poderia ser também chancelado por um bom sistema, confiável, de reconhecimento e credenciamento de instituições.

7.) Visando uma política de formação inicial e continuada de professores, os seguintes aspectos, entre outros que serão lembrados, poderiam ser focalizados e enfatizados, já na fase que agora se inicia:

I – Integração teoria e prática sempre;

II –A prática investigativa; elaboração de projetos; estudos avaliativos e comparativos.

III-Educação democrática- tolerância, respeito à diversidade de idéias e pessoas, participação, solidariedade.

IV-Trabalho em equipe e interatividade.

V-Atividades culturais. Visões nacional, regional, internacional/ mundial atualizadas.

VI-Familiarização com tecnologias da informação e da comunicação. Educação e distância. Autoaprendizado.

VII-Principios de higiene, saúde e cuidados ambientais. Sustentabilidade.

VIII-A carreira do professor. Valorização. Salário, assistência à saúde, etc.

IX-Continuidade nos projetos. Princípio, meio e fim ! (Projetos não devem simplesmente abandonados !)

A formação continuada do professor é de extrema importância! Na verdade ela é importante para todas as carreiras! É necessário que a formação continuada faça parte do plano de carreira do professor, e que tenha o apoio necessário.

Observo que muitos passam pela universidade, mas a universidade não passa por eles ! Os que verdadeiramente ficam imbuídos do verdadeiro espírito universitário, logo percebem que uma vez que se entra, nunca mais se sai da universidade !... A formatura é apenas o fim de uma etapa. É necessário que o “concluinte” estude e se atualize sempre!




(*)Prof.Dr.Lauro Morhy. Professor Emérito, Ex-Reitor, Ex-Decano de Pesquisa e Pós-Gradiação; Ex-Dirigente do Vestibular da Universidade de Brasília. Ex-Vice-Presidente do CNPq. DSc. em Biologia Molecular/ Química de Proteínas. Pesquisador científico em Química de Proteínas, Políticas Públicas de Educação Superior, C&T. Representante da SBPC.

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