terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Matérias " Múltiplas juventudes", Diário de Pernambuco, 27 de Janeiro de 2009

FONTE: http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/01/27/viver1_0.asp
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http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/01/27/viver1_1.asp


Foto: Acervo Infoglobo/Divulgação









Múltiplas juventudes

Levantamento inédito no Brasil, conduzido na UFPE, aponta fragmentação dos movimentos juvenis




Carolina Leão // Diario


carolinaleao.pe@diariosassociados.com.br



Nem sempre a juventude foi uma banda numa propaganda de refrigerante. Associada hoje ao consumismo e alienação, a cultura jovem já incorporou o espírito de vanguarda, clamado por Marx como o ideal do proletariado. Para Karl Marx, apenas o proletariado, destituído dos meios de produção, poderia, pela sua inacessibilidade à máquina do poder, revolucionar a sociedade e criar uma nova ordem social. A lógica do "quem nada tem, nada teme" encontrou os meios práticos de realização nos diversos movimentos juvenis do século 20. Distante das instituições e normas de padrões sociais, mais livre, por fim, para arriscar, a cultura jovem protagonizou eventos sociais de suma importância para a mudança cultural. É só lembrar dos populares Maio de 68, o francês e brasileiro, do movimento estudantil da Praça da Paz Celestial, em Pequim, ou da geração cara pintada, em 1992.
Fenômenos sociais que estão no amplo levantamento feito por um programa inédito em nívelnacional: o Proenge. A pesquisa, que incorpora estudos de História e de Sociologia dos movimentos estudantis e juvenis, está sendo desenvolvida pelo Núcleo de Estudos Eleitorais e da Democracia na UFPE. Na cooordenação, estão os professores Michel Zaidan Filho (PE), Luís Antônio Groppo (SP) e Otávio Luiz Machado (MG). Até o final de 2009, o Proenge contabilizará 52 entrevistas publicadas em livros, além da reunião de 50 pesquisadores estudiosos do tema juventude e movimento estudantil. Já foram publicadas três coletâneas temáticas contando 66 textos: Movimento estudantil brasileiro e a educação superior, Juventude e movimento estudantil: ontem e hoje e Movimentos juvenis na contemporaneidade. No prelo, estão as seletas Movimentos estudantis, formação profissional e construção de um projeto de país: a experiência da engenharia na UFPE, que é o resultado da dissertação de mestrado de Otávio Luiz Machado, Juventudes latino-americanas hoje e Perfis da juventude na contemporaneidade: ensaios e pesquisadores. Um dos coordenadores do Proenge, Otávio Luiz Machado, conversou com a reportagem do Diario sobre o levantamento da memória dos movimentos juvenis brasileiros.
ENTREVISTA: // Otávio Luiz Machado

"A ocupação da reitoria da USP me fez lembrar de 1968"

Quais as características mais marcantes dos movimentos juvenis contemporâneos?

Os movimentos juvenis hoje são marcados por diferentes pautas, formas de atuação, influências de formação e concepção de lutas. São inúmeras juventudes que buscam reconhecimento, visibilidade e legitimidade. Caracterizam-se pela ausência de um movimento dominando os demais. Existem movimentos juvenis que contribuem muito mais que a histórica UNE ou o movimento universitário. O movimento estudantil universitário era o movimento juvenil por excelência décadas atrás. Hoje temos uma fragmentação enorme a começar no próprio movimento estudantil. São muitos: das executivas de cursos, do movimento GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), das feministas, de cursinhos pré-vestibulares populares, dos estudantes negros, dos estudantes indígenas, da juventude católica ou evangélica, das pastorais, do hip hop, das casas de estudantes, dos sem-universidade, das bandas, do grafite e de tantas outras expressões. São jovens que buscam participar e intervir na sociedade, também.

Qual o legado de 1968 e como os movimentos atuais se afastam - ou não - desse paradigma?

1968 ainda está presente na memória de todos como o protótipo de participação juvenil em toda a sua grandeza e profundidade. Mas se trata de uma visão nostálgica e romanceada, que celebra o esquecimento de momentos marcantes que vieram depois, como as tentativas reprimidas do Encontro Nacional dos Estudantes (ENE), a reconstrução das entidades e as greves colossais nas universidades. As barricadas, o frio, as palavras de ordem e o envolvimento dos estudantes na ocupação da reitoria da USP em 2007 me fizeram lembrar de 1968, pois se configurou ali o retorno do movimento estudantil ao cenário e ao noticiário. A abertura maior das instituições (da universidade em especial) para a sociedade constitui-se num legado de 1968.

E a geração cara pintada? Qual a sua contribuição?

No episódio da queda de Collor tivemos toda aquela manipulação de setores da mídia mostrando que os jovens derrubaram o presidente, pois foi a imagem mais conveniente às elites, que não quiseram assumir sua responsabilidade na ascensão e na queda do presidente, para não ficarem associadas ao seu clássico comportamento golpista. Mesmo assim, acredito que a principal contribuição daqueles jovens foi demonstrar que o movimento estudantil não precisa ser partidarizado para existir. E que existe algo além da política que mobiliza e permite mudanças na sociedade.

No Brasil, os movimentos juvenis sempre estiveram historicamente ligados à esquerda. Qual a força dos movimentos de direita na atualidade?

Penso que a força maior do pensamento de direita está nos corações e nas mentes daqueles que pensam não ser mais possível mudar a sociedade. Ou o que interessa agora é se alinhar ao que aí está. Vejo como a juventude organizada em alguns partidos, algumas executivas de cursos e algumas entidades conservadoras promovem um verdadeiro arrastão contra os grupos de esquerda. Mas o pensamento único tomou conta de ambos. Não vêem saídas muito além do seu pequeno mundo.

Um comentário:

Diofo Fernandes disse...

Simplesmente fantástico!!!!!!!!!!!!
Boa matéria que leio rapidinho daqui do Forum Social Mundial. Parabens a todos