quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cineclube “Entre muros e favelas” – A pobreza sendo criminalizada... - Por Fernanda Lívia Nery de Miranda

FONTE: LISTA DE E-MAILS

Cineclube “Entre muros e favelas” – A pobreza sendo criminalizada...

Fernanda Lívia Nery de Miranda
[1]

Objetivo geral: exibir filme/documentário alternativo, de modo que se alcance compreensão coletiva da realidade socioeconômica brasileira, por meio da arte cinematográfica/audiovisual em confronto com vivências pessoais e debate dos conceitos presentes na obra, em processo de construção coletiva de opiniões e críticas;

Público-alvo: usuários do CEAV/Pará – Centro de Atendimento a Vítimas de Violência, serviço executado, nesse estado, pela SDDH – Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, e demais interessados dessa entidade;

Ficha Técnica:
Direção, câmera, edição: Susanne Dzeik, Márcio Jerônimo e Kirsten Wagenschein
Gênero: Documentário
Duração: 55 mim
Tipo: longa-metragem/colorido
Uma produção de: a TreVer, AK Kraak, TV Tagarela
Parceria: Brasil/Alemanha
Ano: 2005

“Se a gente corre, a gente morre, se a gente não corre, a gente morre...”

O documentário “Entre muros e favelas” aborda a realidade brasileira no que tange a criminalização de uma condição econômico-social: a pobreza, abordando uma infinidade de questões polêmicas, como: os conflitos urbanos, a violência institucional, o envolvimento com a criminalidade, o tráfico de drogas, o descaso do poder público, os antagonismos de classe...

O documentário se vale de histórias reais de famílias que moram em favelas do Rio de Janeiro, em específico, as favelas Caju, Borel e Mandela (qualquer semelhança com a realidade belenense não é mera coincidência), bem como, relatos dos familiares de pessoas que morreram marginalizados entre “muros e favelas” na luta pela sobrevivência, tanto material, como espiritual, em meio à realidade tão adversa.

O filme se inicia com um dramático depoimento de duas mães que tiveram seus filhos vitimados pela violência policial, de modo que, segundo elas, o laudo pericial comprovou que não houve troca de tiros, como dizem os policiais, e sim execução. Este relato vem constituir assoladoras estatísticas, que revelam que civis estão sendo mortos pela polícia, sem direito a defesa, estão sendo acusados, julgados, condenados e executados, sumariamente, rasgando-se os direitos assegurados pela constituição brasileira, da maneira mais cruel.

Sem abusar de clichês ou “endeusar” seus “personagens” (personagens esses feitos de carne, osso e, principalmente, sonhos), a longa metragem mostra a trajetória de famílias que foram vitimadas pela violência institucional (realizada por agentes do Estado) ou a violência conseqüente de uma condição sócio-econômica, seres humanos com condições de existência materiais degradantes, criando-se requisitos propícios ao envolvimento com o crime, em conseqüência de uma terrível concentração de renda e ausência de políticas públicas que efetivem condições de vida dignas de existência e/ou políticas públicas de segurança, cuja formação predominante é a de guerrilha, que visam mais a proteger o patrimônio do que a vida propriamente dita (não à toa a maior parte da população carcerária é de pessoas que cometeram furtos e roubos), ou então, se executa políticas sociais pontuais, que não objetivam melhorias estruturais das condições de vida, e sim, manter a ordem. Tais políticas são determinantes para a instalação do que se pode chamar de “caos social”, em que vivemos.

Frise-se a desigualdade social em nosso país, a qual é crucial para se entender a violência urbana, um contexto em que a classe social na qual a pessoa nasce quase que a fada pra sempre a um destino pré-determinado. Que vem a criar um inconsciente coletivo de que se é preto e pobre, provavelmente é bandido, de modo a legitimar a violência policial sobre esses grupos.

Além disso, a coordenação do documentário não se escusou de mostrar o funcionamento do círculo de corrupção e cooptação institucional realizado por agentes do Estado, que a despeito de terem como função proteger a sociedade, acabam eles próprios se envolvendo com a criminalidade, com a agravante de se utilizarem da máquina estatal para promovê-la, e deixar a população à margem da justiça, tanto a institucional (o poder judiciário) como a que se refere à justiça social.

O descaso do Estado com esse panorama problemático é facilmente perceptível com a inércia e/ou morosidade em implementar políticas públicas de concreto efeito de combate às mazelas sociais, quais sejam, políticas públicas que propiciem qualidade de vida as populações economicamente vulneráveis, que efetivem direitos humanos fundamentais, tais como, saúde, saneamento, lazer, esporte, segurança pública, emprego, educação, acesso aos meios de comunicação.

Estes dois últimos direitos, cruciais para um exercício pleno da democracia, de modo que o povo se instrumentalize para uma efetiva participação política, desde a atuação das comunidades na proposição de políticas públicas adequadas a suas realidade, seja na eleição dos governantes, seja na fiscalização desses, que exercem de maneira outorgada o poder político que é de ninguém mais, além do povo, do qual o poder emana. Cabe ainda as indagações: a não realização desses direitos humanos fundamentais seria incompetência? Ou um jogo de conveniências e interesses?

Em combate a esse estado de coisas desordenado, historicamente construído em nosso país, as alternativas são a promoção da mobilização e articulação social do povo espoliado e oprimido, das entidades de direitos humanos, movimentos sociais e entes da sociedade civil organizada, envolvidos por esta causa.

O documentário, ao mesclar imagens “fortes” com os depoimentos enraizados de sentimentos verdadeiros de seus personagens, provoca sensações de indignação, repúdio, espanto a quem assiste, sobretudo aqueles que convivem com situação semelhante. Longe de ser mais um documentário para causar “choque” e logo cair no esquecimento, este documentário parece ter o intuito de uma propor uma reflexão mais profunda da estrutura que sustenta essa situação desses problemas sociais no meio urbano, do que análise artificial dos efeitos desses problemas sociais na nossa sociedade.

A universalidade do tema está na crise social do país, dominado pela pobreza, fome, miséria e descaso do Estado com os problemas sociais, e ainda no relato da história de alguns dentre os milhões de cidadãos que não “vivem”, mas “sobrevivem” entre muros e favelas, a margem dos benefícios da sociedade contemporânea, adaptando-se a todas as situações e enfrentando as adversidades como pode.
BIBLIOGRAFIA:

CINECLUBE Isa Cunha arte e(m) debate (projeto), UFPA, 2007.
CINECLUBE Isa Cunha arte e(m) debate (blog).
[1] Acadêmica do 10° semestre do Curso de Graduação em Direito da Universidade Federal do Pará.

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